quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Zé Garcia



                                                
Ontem vi o Zé. Ele estava passando perto da minha casa e parou para conversarmos. Sempre cabisbaixo, digno, humilde. Disse, com um sorriso tímido, que a saúde não vai bem. Depois se despediu e continuou a caminhada.
Enquanto ele se afastava, comecei a relembrar de sua vida.  José Garcia trabalhava para minha família na Fazenda Anjo da Guarda. Lembro-me de sua presença suave desde que me conheço por gente. Ele falava pouco e trabalhava muito, na roça mesmo, trabalho duro. Sempre de cabeça baixa, sempre humilde, sempre digno.
Sua vida restringiu-se ao campo. Poucas vezes, vinha para a cidade. Ficava na zona rural com as plantações e criações. Bom esposo, bom pai. Ele faz parte de uma parcela rara da humanidade.
Uma das cenas que mais me marcou sobre o Zé aconteceu em 1988. Minha família foi à falência. Quando Zé foi receber o dinheiro do acerto, baixou a cabeça e chorou. Choramos com ele. Trabalhou tanto tempo pra nós e agora tudo havia acabado. Na minha vida, vi poucos homens chorarem, as lágrimas dele doeram em mim.
Por ser notoriamente um bom funcionário, ele conseguiu um emprego com nossos primos numa fazenda vizinha da que era nossa.  Continuou a trabalhar da mesma maneira, em silêncio. 
Muito tempo se passou até que eu o visse novamente. Encontrei-o um dia na Avenida São João. Ele me abraçou como seu eu ainda fosse criança. Sua alegria se estampara num sorriso.
Há pouco tempo, ao se aposentar, Zé mudou-se para a cidade de Itambé com a esposa, Santa, juntando-se ao filho Eder, que já estava aqui. Adaptação difícil para quem tem a alma no campo. Poucas vezes, o vejo na rua, com a cabeça baixa e semblante humilde. Num país tão corrupto, poucas pessoas podem andar de cabeça erguida. O Zé pode, mas não anda.

13/4/2016
Denizia Moresqui



Meu pé de goiaba



                                                    MEU PÉ DE GOIABA

      Quando se nasce numa fazenda, uma de suas primeiras obrigações é aprender a subir em árvores, principalmente frutíferas. Na Fazenda Anjo da Guarda, havia muitas: castanheira, mexeriqueira, laranjeira, pereira, mangueira, limoeiro, abacateiro... e por aí vai. 
      A tática é simples: primeiro você observa a árvore para ver se o fruto vale a pena; depois se aproxima do tronco, segura o galho mais baixo com uma das mãos e o outro já coloca no galho mais acima, enquanto seus pés vão procurando apoio no tronco. Quando olha ao seu redor, está cercado de frutas, que você come sem lavar. Abaixo, o chão é o limite, então é preciso se segurar firme.
       Havia árvores em volta da minha casa e no pomar, um pouco mais distante. Eu subia em todas. Meu recorde foi vencer uma paineira. Todo mundo sabe que o tronco da paineira é cheio de espinhos e ela não dá frutas. Mas ela dá paina. Como eu era chamada de cabelo de paina, queria ver de perto e sem sujeita de terra aquela pluma. A curiosidade é a mola propulsora da coragem. Fiquei toda estrepada, mas venci.
      A minha árvore preferida era a goiabeira, ou pé de goiaba, como dizíamos. Havia um atrás da privada. Eu ficava muito tempo lá em cima, observando as vacas no pasto. Sempre tive fascinação por altura e por goiaba. Então, estava no paraíso.
      Em julho de 1980, minha família mudou-se para a cidade de Itambé. Foi estranho. Nosso limite era a casa e um quintal com um abacateiro imenso e, para minha sorte, um pé de goiaba. Ele era magrelo, quase sem folhas e nenhum fruto. Nem sei se algum dia, aquela árvore teve a alegria de frutificar, mas era o que eu tinha agora.
       Eu subi no pé de goiaba e fiquei analisando ao redor. Meu horizonte diminuiu, vida nova. Como não havia goiabas, eu ficava conversando com a árvore, deitava em seus galhos, balançava, pulava no chão e subia novamente. Apesar de ficar bem próximo da casa, quando eu estava sobre a goiabeira, quase ninguém me via. Minha mãe me chamava pra enxugar louça, o que eu odiava, e eu ficava quietinha até a Ducimara enxugar, me praguejando. Quando me viam, diziam: “Lá está a macaca branca preguiçosa!”
       Um dia, percebi que a goiabeira florescera e, dentro de pouco tempo, apareceram seus primeiros frutos. O que começou timidamente logo explodiu em fartura. Eram tantas goiabas que nós e os bichos ficamos abastados. Meu pé de goiaba estava me presenteando pela atenção e carinho que eu lhe dava. Até uma árvore frutifica quando é bem tratada!
       Sim, meu pé de goiaba me deu frutas por vários anos. Mas um dia, a família decidiu construir um barracão no fundo do quintal. Poderia ser chamado hoje de edícula, era de madeira, com local para área de serviço e uma despensa. O quintal era grande, no entanto, decidiram cortar o pé de goiaba para construir bem em cima do mísero terreno que ele ocupava.
       Eu poderia ter protestado, dito que aquilo era uma absurdo, derrubar uma árvore com tanto espaço em volta, que fizessem o barracão mais para cima... eu poderia ter dito muita coisa. Mas eu não sabia discutir. Eu não disse nada. Resignei-me. Esse silêncio ainda grita em mim. Vi a queda do meu amigo, folha a folha, galho a galho, cortou-se o tronco e fim. Fez-se o barracão e minha árvore foi esquecida por todos, menos por mim.
      Até hoje, a goiaba é minha fruta preferida, não sei se pelo sabor ou pela história. Ainda não consigo discutir. Minha boca se cala e, se tento falar, gaguejo. A oralidade não é meu forte. Mas já desisti de ser diferente. Talvez o silêncio seja a única forma de expressar minha indignação. Talvez por isso, eu gostasse tanto do silêncio das árvores.

Denizia Moresqui


4/11/2016

Meninas e bonecas




                                                       
         As primeiras foram de milho. Morando numa fazenda, isso era natural. Tínhamos cento e vinte alqueires de bonecas de milho: ruivas, loiras e morenas. Era só escolher e brincar. Mas se a quantidade era grande, o tempo não. A época das bonecas de milho durava poucos dias, depois ficávamos o resto do ano sem estes brinquedos. Então era preciso buscar outros meios de nos divertirmos.
        Um dia, a Tia Lourdes, que morava na cidade, foi nos visitar. Vendo nossa falta de brinquedos, decidiu nos dar um presente. Pegou uma calça jeans, cortou, costurou, encheu com tecidos, fez cabelos com tiras, desenhou o rosto e pronto: ela nos deu uma boneca de pano. Era grande, com mais ou menos quarenta centímetros. Ficamos felizes. Mas havia quatro meninas para uma boneca. Como sempre, eu fui a última a brincar. Que alegria, finalmente uma boneca com a qual eu podia conversar sobre as notícias do Jornal Nacional.
       Tempo vai, tempo vem... uma noite, estávamos as quatro irmãs prontas para dormir. Nossa casa era grande, mas só havia três quartos. Num dormia meu irmão, no outro, meus pais e no terceiro, eu e mais três irmãs. A convivência não era fácil. A Dulcinéia queria que a luz ficasse acesa e a Ducimara queria que apagasse. Então começou a briga. Eu e a Deise não nos atrevemos a entrar naquele duelo de Titãs. Não havia interruptor, só dois fios com as pontas desencapadas e emendadas para acender a lâmpada. A Ducimara, querendo escuro, jogou a nossa única boneca nos fios e apagou a luz. Então, com passos pesados no assoalho e muita raiva, a Dulcinéia levantou-se, foi até o brinquedo e... creeeccc. Só ouvimos o barulho das pernas da boneca sendo rasgadas. Depois ela acendeu a luz e ninguém mais se atreveu a apaga-la. Perdi a boneca, o sono... e o sonho.
       Voltamos às bonecas de milho uma vez por ano. Mas algo extraordinário aconteceu em dezembro de 1979. Eu e a Deise fomos com nossos pais à Maringá, numa grande loja chamada Centro Comercial Tiradentes, onde havia até um parquinho na porta, no qual ralei as minhas pernas. Meus pais ficaram muito tempo lá dentro, eu não sabia o que estavam comprando, até que me chamaram e me mostraram a coisa mais linda que meus olhos viram até aquele dia: uma linda boneca, gorducha e loira dentro de uma caixa. Ela se chamava Dorinha e do caixa em diante seria minha, só minha, porque minhas irmãs também ganhariam outras bonecas.
       Fui para casa extasiada. Passeei, brinquei e ainda ganhei uma boneca. Era muita emoção para um dia só. Em casa, tirei o brinquedo da caixa e o abracei como se abraça alguém que esperamos a vida inteira. E como brincamos, e como fomos felizes! Eu conversava com ela sobre minhas teorias sobre o mundo, o comportamento alheio, minhas tristezas e alegrias. Também cuidava dela, penteava seus cabelos, a cobria para dormir, dava banho. Dorinha foi minha única boneca por muitos anos. Depois vieram outras e, com o tempo, fui deixando a época das bonecas. Até que elas se perderam no esquecimento.
       Eu não sabia por que nós, meninas, tínhamos tanta ânsia por aquelas miniaturas de gente. Por que precisávamos tanto de bonecas, enquanto nosso irmão se contentava com estilingue, bolas e carrinhos? Por que bonecas? Naquele tempo eu não sabia. Agora, que sou mãe, eu sei.

Denizia Moresqui


30/01/2015

Linguagem

                                                                                   



Letras, minha formação. Aprendi a amar as palavras desde cedo. Pelo som, pelo significado ou pelo que eu ignorava delas. Aprendi também o valor das palavras na busca de meus objetivos.
Tenho quatro irmãos, todos mais fortes do que eu. Então quando eu queria tirar alguma coisa deles, de maneira nenhuma poderia usar a força, seria surra na certa. Eu também não sabia discutir. Recorria sempre à sutileza da palavra, ao convencimento pela linguagem. Eu os observava durante todo o dia, seus gestos, humor, até definir que palavras usar, o tom de voz e o momento certo de atacar. Batata! Sucesso em 99% das tentativas. Minha força era a linguagem.
E assim cresci e fui conquistando meu espaço. Por vocação, eu queria ser jornalista. Mas por não haver este curso próximo à minha cidade, minha mãe sugeriu que eu fizesse Letras. Amei o curso e consegui novas armas paras as minhas batalhas.
Aos 36 anos de idade, já bastante íntima das palavras, tive um filho. Um lindo menino que demorou a falar. Eu pensava: falar é difícil mesmo! Mas fui percebendo que não era só falar que ele não sabia, era interagir, se comunicar por outras formas. Veio o diagnóstico: autista savant. Meu filho era um gênio aprisionado em um mundo particular.
E agora: eu que tanto apreciava a linguagem, estava diante da incógnita de um filho que vivia num mundo sem interação. Que armas usar para essa batalha? Minhas palavras não faziam o menor sentido para ele. Eu não conseguia me comunicar, ensinar... nada. Era só silêncio.
Então fiz o que qualquer mãe faria: demonstrei meu amor através de abraços, beijos, carinho e dizia, frequentemente, eu te amo. As primeiras palavras, faladas e lidas por ele, vieram aos três anos de idade: papai, mamãe, água.... Muitas eram ditas fora de contexto, mas eu as amava assim mesmo.
Passaram os dias, entre poucas palavras e muitos gestos de amor, meus e dele. Amar era tudo o que eu podia fazer. Meu domínio da linguagem não tinha nenhum valor para meu filho. Eu tive que aprender junto com ele um novo tipo de comunicação... e aprendi.
Até que aos 4 anos, finalmente, ele olhou pra mim e disse sua primeira frase: Te amo.

Denizia Moresqui

06/12/2016

Escadas e livros





                                                          
Sempre gostei de escadas. Em minha casa, na fazenda Anjo da Guarda, havia poucos degraus que eu descia e subia constantemente. Quando mudei-me para Itambé, descobri que para chegar a biblioteca pública, era preciso subir uma imensa escadaria. Porém eu ainda estava na 1ª série do primário. Sendo assim, oficialmente, eu não sabia ler com fluência e não poderia pegar livros emprestados na biblioteca. Tive que esperar o advento de 1981 para subir as escadas.
Então finalmente cheguei à 2ª série e meu sonho de escalar o conhecimento se realizaria. Acho que foi a Ducimara, uma de minhas irmãs, que me levou até à biblioteca, que ficava no sobrado da prefeitura, a uma quadra da minha casa. Era preciso entrar pelos fundos do prédio, onde havia uma rampa, no final desta uma porta de vidro dando acesso a dois lances de escada em espiral, que chegavam ao mesmo lugar. Depois desses, mais degraus em linha reta e um corredor. Que alegria! Pisei em todos como se pisasse numa passarela estrelada.
Adentrando à biblioteca, meu encantamento foi maior ainda. Havia estantes enormes cheias de livros. As grandes janelas de vidro deixavam à mostra a Praça Rui Barbosa, a Igreja Matriz e o posto de gasolina. Quis ir até a sacada, mas não podia, era perigoso. Fui então aos livros das prateleiras altas. Mas os que caberiam a mim eram apenas os de literatura infantil, que ficavam numa prateleira baixa para facilitar o acesso. Coloridos e cheios de desenhos, era um mais lindo que o outro. Então, fiquei uma eternidade tentando escolher qual levaria para casa, qual seria meu por alguns dias. Minha irmã me apressava, mas eu não tinha pressa em escolher meu sonho.
Enfim, precisei decidir. Não me lembro qual livro foi, só sei que o entreguei para a bibliotecária que fez uma ficha em meu nome e alertou que eu teria que devolvê-lo no prazo certo para não ter que pagar multa. Fiquei com medo. Depois, desci as escadas com meu troféu nas mãos. Descer era mais fácil que subir e, com o livro, a alegria era ainda maior.
Em casa, li o livro rapidamente e já queria voltar às escadas para pegar outro. Mas minha mãe disse que só voltaríamos no dia seguinte. O preço do amor é a espera. Quando amanheceu, já fui infernizar a casa para voltar à biblioteca. Minha irmã me levou lá novamente: a rampa, as escadas em espiral, as escada em linha reta, o corredor, a biblioteca, os livros... a sacada proibida.
“O quê? Eu não posso devolver o livro e pegar outro no mesmo dia?”
“São as regras da biblioteca, preciso verificar se não houve danos ao livro.” – disse-me a bibliotecária.
Tudo bem. Amanhã eu volto e posso subir mais vezes as escadas. E assim, passaram-se os anos do primário, entre escadas e livros. Sim, eu ia até lá por causa das escadas, mas os livros também me davam contentamento e meus pais ficavam orgulhosos porque eu lia muito.
Mas... eis que algo perturbador aconteceu. Certo dia, uma professora pediu para que lêssemos um livro e preenchêssemos uma ficha de leitura. Nesta, era preciso responder a questões e fazer um resumo. Não sei bem qual era o objetivo daquilo. Até então, para mim, ler era prazer e não dever. O pior é que o dever era para ser feito durante as férias de julho. Fiquei o mês todo desesperada sem saber qual livro leria. Por fim, não peguei nenhum da biblioteca. Uma vizinha me emprestou um sobre papagaios. Foi uma luta fazer aquela ficha. Principalmente porque eu não sabia fazer resumo. As férias se foram sem que eu as aproveitasse brincando ou lendo por diversão. Quando finalmente as aulas voltaram, percebi que apenas eu tinha feito a tarefa, todos os outros alunos sequer haviam se lembrado do trabalho e não perderam suas brincadeiras. Entreguei a ficha à professora que a colocou sobre a mesa, depois a jogou no lixo.
...
Muitas outros professores vieram depois com muitas outras fichas de leitura, uma mais exigente que a outra, querendo fazer a autópsia dos livros que, agora, eu era obrigada a ler. Acredito que os professores também não ficavam felizes com isso, mas era preciso avaliar a leitura, regras da educação.
E assim fui capengando até chegar o vestibular. Eu queria cursar jornalismo, mas não havia esse curso na universidade mais próxima, em Maringá. Minha família não tinha recursos para que eu pudesse estudar em Londrina. Então minha mãe sugeriu que eu cursasse Letras, porque sempre gostei de escrever.
Lá fui eu, capengando na leitura. Tive muitas dificuldades para concluir o curso. Uma noite, sonhei que estava na biblioteca da universidade tentando subir as escadas. Quanto mais eu subia, mais os degraus se encurtavam ao ponto de não caber nem meu pé, cheguei ao final do primeiro lance rastejando. O sonho, ou pesadelo, terminou sem que eu soubesse se conseguiria subir o restante das escadas e alcançar os livros, o conhecimento.
Consegui. Então deparei-me com meus próprios alunos e a terrível tarefa de avaliar a leitura. E agora? Confesso, que até hoje, eu não sei. Pois, como destacou Daniel Pennac: “O verbo ler não suporta imperativo.”*



                                                          Denizia Moresqui
                                                             24/10/2016


*Do livro Como um romance, 1997.

Aprendiz de cientista



Minha mãe me disse que, desde muito pequena, sempre fui curiosa. Ao nascer, eu já olhava para todo lado a fim de conhecer o mundo. Quando aprendi a falar, disparava perguntas infinitas que ninguém queria responder. Eu queria saber o porquê de tudo, não havia limites para o desejo de saber.
“Mãe, água quente apaga o fogo? Por que chove e depois tem arco-íris? O que significa famigerado? Quem criou Deus?” E assim, sucessivamente, as perguntas brotavam da minha boca e faziam todos correrem quando eu chegava. Eu era uma verdadeira “espalha rodinhas”. Então decidi investigar algumas coisas por conta própria.
Um dia, o fogão à lenha estava acesso. Encontrei uma corda de nylon e pensei: O que acontece se eu botar fogo na ponta da corda e rodá-la? Como todo cientista que se preze, parti ao meu experimento. Enfiei a corda na boca do fogão e quando acendeu comecei a rodar para ver o que acontecia. Encantador, a luz girando em minha mão me deixou maravilhada.
Até que... a ponta da corda derreteu, soltou-se e grudou bem na minha cara. Ai que dor! Que coisa terrível. Comecei a chorar e pular, então fui ver o estrago no espelho. Uma grande mancha vermelha se formava na minha bochecha esquerda. As lágrimas escorriam, enquanto eu tentava arrancar a mancha e os pedaços da corda com os meus toquinhos de unhas. Mas não teve jeito. Precisei pedir socorro à minha mãe. Entretanto ela pouco pôde fazer para aliviar a dor e diminuir as consequências da minha curiosidade. Meu rosto ficou com uma grande mancha vermelha, que parecia o mapa do Brasil.
Poucos dias depois quando o machucado já estava com casca de ferida, decidi brincar mais ao invés de tentar desvendar os mistérios do universo. Eu era criança e deveria agir como tal. Meus irmãos e primos estavam brincando no terreirão de café. Fui até lá tentar interagir. Eles queriam brincar de peixinho. O negócio que era assim: pegava-se uma criança leve, todas as outras ficariam de duas a duas de braços unidos e estendidos, umas ao lado das outras, fazendo uma grande corrente por onde a criança leve passaria por cima até chegar ao final.
Adivinhem quem foi a criança leve escolhida. Então me colocaram nos braços das duas primeiras da fila e foram me passando pelos outros braços. Até que aquilo era divertido, me senti uma estrela levitando. Foram passando, passando... No final da fileira, continuaram me passando, só que não havia mais ninguém para me segurar. Caí de cara no chão áspero de concreto. Ah! Caí com o lado direito do rosto no chão. Resultado: fiquei com um mapa do Brasil vermelho na bochecha esquerda e o Monte Everest roxo na direita. Pelo menos em geografia, eu estava bem.
                                                        Denizia Moresqui
                                                           11/04/2014



A escola





Acordei bem cedo naquela manhã, tentei abrir os olhos mas eles estavam grudados pela remela. Depois de esfrega-lo, consegui abrir. Minha irmã me acordou porque era um dia especial: dia de ir a escola pela primeira vez.
Eu ainda estava com seis anos, mas como já sabia ler, meus irmãos decidirem que eu deveria ir a escola também. Como toda criança gosta de novidades, resolvi tentar. Após o café, partimos, eu e mais três irmãos, rumo à Escola Isolada Anjo da Guarda, que ficava a uns cem metros de nossa casa.
Já havia muitas crianças no local, todas uniformizadas. Os meninos de camisa branca e calça azul marinho, as meninas de saias de pregas. Era bonito de se ver. A escola só contava com duas salas de aula, onde duas professoras lecionavam para as quatro séries iniciais; havia também um pequeno pátio entre as salas e, é claro, os banheiros, ou melhor, privadas: uma para os meninos e outra para as meninas, construídas de parede e meia.
As professoras chegaram de Kombi, ambas moravam na cidade de Itambé e eram transportadas até a zona rural pelo motorista da prefeitura. Eles traziam a merenda em grandes potes de alumínio.
Foi dado o sinal de entrada. Os alunos que estavam correndo no pátio logo formaram fila. Meus irmãos me empurraram na fila da 1ª série. A professora perguntou a minha idade e, antes que eu respondesse, meu irmão disse que era sete. Pois, pelas leis da educação da época, eu só poderia cursar a primeira série com sete anos.
Entramos na sala de aula, tinha um cheiro estranho, cheiro de coisa envelhecida. Havia um quadro negro, e era negro mesmo; carteiras duplas enfileiradas e alguns armários. Sentei-me onde a professora mandou. Fiquei olhando as paredes e todas as crianças sentadas, comecei a não gostar muito daquilo. Senti-me presa, para quem passava os dias andando e correndo sem direção, aquilo era uma tortura. Mas resignei-me momentaneamente.
A professora não tinha engolido bem a mentira do meu irmão. Eu sempre fui aniquilada, a menor e a mais magra da família. Então era difícil mesmo acreditar que eu tinha sete anos. Após alguns minutos de aula, ela chegou perto de mim e me perguntou: “Quantos anos você tem?”
Bem, eu sabia que a resposta seria decisiva para minha permanência na escola. Então, o tempo parou e pensei: Se eu mentir, continuo na escola, mas estarei cometendo um pecado. Se eu disser a verdade, terei que deixar a escola, porém fico bem com minha consciência. Na real mesmo, eu queria mais um ano livre. Sendo assim: “A verdade vos libertará.”
                                                                                Denizia Moresqui

                                                                                   20/04/2014

A galinha ou eu!


                                                                                 
                                                                               



     estava ele, entre o paiol e o pé de limão, reinando absoluto na hora da dor de barriga: o mictório, ou privada, ou W. C. caipira.
      Pra vocês que têm menos de trinta anos e nunca moraram em sítio, aqui vai a descrição do mictório: uma casinha bem pequena de madeira, dentro tem uma caixa grande com um buraco em forma de losango, onde a gente se sentava para... bem, para fazer o que hoje vocês fazem no vaso sanitário.
      O nosso mictório era bem velho e ficava a uns dez metros da casa. Ter dor de barriga de madrugada estava fora de questão, já que nem luz elétrica havia lá.
      O fato que vou lhes contar agora, do qual o mictório, é personagem principal, ocorreu por volta de 1978, quando eu tinha uns cinco anos. Desde bebê, morei numa fazenda. Minha mãe criava os cinco filhos e as galinhas soltos no quintal. A gente mal sabia a diferença entre nós e elas. Só sabíamos que as galinhas eram nossas amigas e que nós as comíamos no almoço de domingo.
      Eu sempre gostei de animais, talvez porque me sentisse como um deles. Conversava com cavalos, ouvia as queixas dos pintinhos, desabafava com a vaca...
      Um dia, porém, uma galinha nova olhou para mim com ar arrogante, parecia se sentir superior à minha pessoa. Quando dei por mim, estava eu perseguindo a danada a fim de dar-lhe uma surra. Eu corria pra um lado, a galinha pro outro; quando quase conseguia pegá-la, ela se esgueirava e fugia. Foi então que a infeliz correu para o lado do mictório: o personagem principal desta história.
      Como eu estava determinada a dar uma lição na famigerada, continuei na caça. Ela entrou no mictório e eu atrás. Quando se viu encurralada, deu uma esvoaçada (porque galinha não voa, esvoaça), e não é que a penosa caiu bem dentro do buraco do mictório.
      __ E agora, o que farei?__ pensei em voz alta. Olhei para fora do estabelecimento. Não havia ninguém, nenhuma testemunha do meu crime. Então saí assoviando (se eu soubesse assoviar). Fingi que nada havia acontecido. Pois se eu contasse à minha mãe era surra na certa, tirariam a galinha de lá, mas eu entraria na cinta.
       __ Se fiquei com remorso?
       Sim, fiquei por um ou dois minutos. Remorso de criança e de bêbado tem breve duração. Depois me esqueci de tudo brincando com meus irmãos e primos.
       Algum tempo passou, não sei se um mês ou um ano. Porque, para as crianças, o tempo passa diferente, um dia pode parecer uma semana. Então, passado o tempo, alguém olhou para o mictório e disse:
       __ Está velho, vamos derrubar.
       Não pense que ganharíamos um vaso sanitário. Isso era algo impensável naqueles dias. Ganharíamos um mictório novo em cima do mesmo buraco.
       Tira telha, tira tábua, tira ripa, tira piso...
        E então o que surgiu foi assombroso. Adivinhem quem surgiu da... (as reticências falam por si) “a galinha” viva e saudável. Foi retirada do buraco e passou a caminhar espantada pelo quintal. Mais espantados ficaram os moradores da fazenda, principalmente eu, que sabia (ou imaginava) quanto tempo a coitada passou lá.
        Estão pensando que eu contei tudo à minha mãe? Que nada, até hoje só eu e a galinha conhecíamos a verdade e como ela não falava... escapei. Só com trinta e quatro anos resolvi contar ao mundo nossa história. Uma homenagem póstuma à galinha. Quem será que a comeu?

        
                Denizia Moresqui
                      25/05/07

Essa história foi escolhida no Projeto Revelando os Brasis, do Instituto Marlim Azul, patrocinado pela Petrobras, e virou filme em 2011.

Link do filme A galinha ou eu! 
https://www.youtube.com/watch?v=YG6Qmh9jRA0&t=114s

Entrevista sobre o filme ao Canal Futura
https://www.youtube.com/watch?v=ZR8cfJnSRDc

Making of do filme:
https://www.youtube.com/watch?v=ZmETFFKEjY4

Documentário sobre a produção do filme: Raio X Petrobras - 6 episódios

Trailler https://www.youtube.com/watch?v=YUwpoR66Lpg

Episódio 1 https://www.youtube.com/watch?v=Tp5qr3FE9b4

Episódio 2 https://www.youtube.com/watch?v=Tp5qr3FE9b4

Episódio 3 https://www.youtube.com/watch?v=LYIG1kMpFrc

Episódio 4 https://www.youtube.com/watch?v=LYIG1kMpFrc

Episódio 5 https://www.youtube.com/watch?v=Ifxoi3DFKrs

Episódio 6 https://www.youtube.com/watch?v=nf-jb6LKyoY

Reportagem da Revista Petrobras sobre o filme


http://www.imazul.org/revelando//_midias/pdf/revista_petrobras_p2-2285-4dd2c2f83db64.pdf

A roda gigante


                                                        A RODA GIGANTE


        Nós morávamos a muitos quilômetros de um parque de diversões. Nós éramos: eu, quatro irmãos, quatro primos, e uma dezena de filhos de moradores da Fazenda Anjo da Guarda. Criança era o que não faltava naquele lugar.
        Como eu estava dizendo... não havia possibilidade, devido a distância e ao número de crianças, de todos nós irmos a um parque de diversões. Mas  nem tínhamos este sonho. Porque isto não fazia parte do nosso mundo.
         Porém, havia o Tio Sérgio, que também não era desse mundo. Digo isto porque ele tinha ideias bem avançadas para aquele tempo e lugar. Tudo bem que ele morava na cidade de Itambé, mas a cidade era pequena e, pelo que eu soube, as pessoas de lá também não pensavam como ele.
         O tio amava as máquinas, motores e tudo o que era moderno para a década de 70. Ele voava com sua moto pelas estradas, levantando poeira; gostava também de dirigir carros, tratores e pilotava o avião que pulverizava as plantações da fazenda.
          E ele gostava  de inventar suas próprias máquinas. A que interessou a mim e às outras crianças foi a tal da roda gigante. O tio ficou dias e dias na produção de sua obra-prima. Cortou, soldou, montou... e finalmente nos apresentou seu invento. A máquina era movida por um motor, tinha uns quatro metros de altura e várias cadeirinhas onde as crianças poderiam se sentar. E não é que aquele trem funcionava mesmo. Só havia um problema: por uma questão de equilíbrio, cada cadeira deveria levar duas crianças e não poderiam restar cadeiras vazias.
          Geringonça pronta, vamos ao teste. Era preciso um voluntário, ou melhor, uma cobaia para isto. Sugeriram que fosse eu, por ser a mais magra da turma. Houve protestos, então decidiram colocar uma pedra no meu lugar (ufa). Quando a máquina foi ligada, a pedra voou longe. Ainda bem que foi a pedra e não eu. Então o tio fez alguns reparos e o brinquedo ficou seguro. Todas as crianças da fazenda subiram na roda gigante, uma de minhas irmãs ficou sem par para a cadeira, então colocam sucatas para ir com ela. Assim a  danada máquina foi ligada. Que sucesso! Nunca tinha visto nada parecido. A gente subia, rodava, descia, subia, rodava, descia... que alegria. O teste mostrou que tudo funcionava bem.
          No segundo dia de funcionamento do nosso grande brinquedo, nós subimos nas cadeiras novamente. Porém, havia uma menina que estrearia o invento naquele dia e estava com medo. Mas concordou em brincar assim mesmo. Meu tio ligou a roda gigante e foi trabalhar no barracão ao lado. Quando o brinquedo estava em pleno funcionamento, a tal menina pulou de sua cadeira. A roda gigante disparou, fazendo todo mundo gritar desesperadamente. Parecia que quanto mais nós gritávamos, mais aquele negócio rodava.
           Quando eu (e as 8 outras crianças do brinquedo) estavam a ponto de vomitar, tio Chico apareceu e desligou o motor que impulsionava o brinquedo. Fomos salvos.
           Depois disso, a roda gigante foi abandonada. Voltamos às velhas brincadeiras e deixamos de lado a modernidade. Mas... como aquele brinquedo deixou saudades... e o meu tio Sérgio também!
Tio Sérgio e Tia Jurema


            Denizia Moresqui
                  17/02/08

A pulada no algodão



       De todas as artes (travessuras) que fazíamos na Fazenda Anjo da Guarda, a pulada no algodão era nosso crime preferido. Digo crime porque nos era terminantemente proibido pelos adultos pular no algodão, não pelo perigo da prática e sim para não estragar o produto. E sabem como é: o que é proibido, mais a criança (molecada) quer fazer.
        Eu e toda a molecada (criança) da fazenda esperávamos os pais e funcionários irem trabalhar fora da sede e, quando a barra estava limpa, íamos à debandada para o grande barracão onde era armazenado o algodão. O local era imenso, pelo menos para mim, no alto dos meus seis anos e vinte quilos. Era feito de madeira e alvenaria em algumas partes. Fora construído para armazenar café, mas com a erradicação desta lavoura na fazenda  por causa da Geada Negra de 1975, passou a ser usado para armazenar algodão e soja.
         Pular no algodão não era tarefa fácil. Eu tinha que dar a volta por fora do barracão, subir numa passarela de madeira com frestas entre as tábuas. Eu morria de medo de cair pelas frestas, então subia a rampa de joelhos. Alcançado o alto da rampa, entrava pela porta do barracão e me lançava sobre o algodão. Eram os segundos mais felizes do meu dia, voar pelos ares e cair naquele monte macio e branco, que satisfação! Para pular novamente, eu precisava fazer todo o percurso novamente, o que demorava alguns minutos, devido às minhas pernas curtas e ao longo trajeto a ser percorrido de pés descalços por fora do barracão.
         Havia uma alternativa mais rápida. Ao lado do monte de algodão, se encontrava uma escada na parede. Era necessário subir por essa escada, andar por cima da parede que tinha uns dez centímetros de largura, até chegar à rampa que dava acesso ao pulo. Mas o processo era perigoso, se você caísse da parede para o lado oposto, era uma queda de uns cinco metros no chão duro de terra: morte certa. Ao contrário dos meus irmãos e primos, nunca tive coragem de me arriscar. Mas aquele negócio de ter que dar a volta no barracão toda hora para pular já estava me cansando.
        Como a preguiça é a mãe da evolução, resolvi tentar. A fila para subir na escada era grande, a espera aumentava meu medo, mas fiquei firme. Quando finalmente chegou minha vez, fui falando para mim mesma: “Você consegue!” À medida que subia, meu coração disparava e atrás de mim já se formara outra fila. Como eu ia devagar, as outras crianças foram ficando impacientes e gritavam: “Anda logo!” Então cheguei ao topo, olhei do outro lado da parede e vi que era bem mais alto lá de cima do que olhando de baixo. Travei. Não ia para frente nem para trás, ainda era preciso subir na parede e me equilibrar sobre ela até alcançar a rampa. Mas eu não me mexia. Eu ficaria ali o resto da vida, mas... (e sempre tem um “mas”) bem atrás de mim estava uma de minhas irmãs. Ela não possuía a delicadeza como virtude, além disso, sua mão era bem grande e pesada, juízo: ninguém tinha, mas ela ..... Para me forçar a sair e destravar a fila, ela me deu um empurrão de disse: “Vai!”
        Eu quase fui mesmo. Nesse momento, me desequilibrei para frente e já senti minha cara batendo no chão. Meu coração gelou e as pernas amoleceram. Era meu fim.      
        Mas os anjos fazem hora extra para as crianças. Não sei como, consegui me segurar na escada e evitei a queda. Imediatamente, comecei a descer por cima de todo mundo, gritando: “Eu quero descer, eu quero descer!” Deveria ter uns trinta moleques dependurados. Quando coloquei meus pés no chão, percebi que ainda estava viva. Quase beijei a terra. Então decidi:
       _Pra mim, acabou a pulada no algodão... agora só pulo na soja.

                                                                    Denizia Moresqui
                                                                        10/04/2014               

Menina, cavalo e flor

   
  Quando eu ficava sozinha na Fazenda Anjo da Guarda, e isso acontecia com frequência, gostava de observar os animais. Sempre achei as vacas preguiçosas, mascando o dia todo e balançando o rabo. Os porcos eram meio bobos, fuçando de um lado para o outro. Às vezes havia ovelhas, lindas. Eu entendia todos eles pelo olhar.
     Mas o animal que eu mais admirava era o cavalo. Que elegância, que porte, que beleza e, principalmente, que sensibilidade! Para mim, era absurdo um ser tão superior (se permitir a) puxar carroça e servir de montaria para seres humanos. Uma ofensa à dignidade do animal. E isso ficava bem claro no olhar dos equinos, sempre tristes, indignados, sofridos. Um ou outro se revoltava às vezes tentando derrubar o cavaleiro. No entanto, a maioria se resignava à sua triste sina.
     Um dia, eu estava colhendo rosas no quintal de casa. Eu gostava de comer rosas, principalmente as vermelhas. Vi um potro marrom solto procurando pastagem no chão quase vazio. Olhei a rosa, olhei o cavalinho tão digno, tão sensível. Não tive dúvidas, ele merecia uma rosa. Mesmo tão jovem, ainda com seis anos, eu sabia que as pessoas davam flores a quem admiravam e amavam. Aquele animal merecia um rosa, merecia uma prova do meu respeito.
    Colhi a flor e segui ao seu encontro. Chegando perto dele, estendi a rosa para que ele cheirasse: “É pra você.” Naquele momento, eu sabia que todo sofrimento que aquele cavalinho ainda passaria na vida seria aliviado pelo meu gesto. Senti-me feliz, importante.
    Daí, o potro se virou e me deu um coice. A pata do animal passou a centímetros de meu rosto. Se tivesse acertado, eu teria outra cara hoje. Caí para trás com o coração acelerado, quando consegui me levantar, corri o mais longe possível do cavalo. E pensava: “Por que ele me deu um coice se é tão sensível?” A resposta já estava na própria pergunta.
    Não tive coragem de contar para ninguém, iriam pensar que eu era idiota em querer dar flores a cavalos. Mas o tempo passou, eu cresci, evoluí... aí você pode pensar: “Então ela não cometeu mais esse erro.”
    É claro que cometi. Até hoje ofereço flores a cavalos e levo muitos coices. Mas não vou desistir, não podemos perder a esperança. Nunca se sabe quanta sensibilidade se esconde por trás de uma cara animal.
  11/04/2014

2016

                                          

ESCREVENDO O FUTURO

                                                                                 ESCREVENDO O FUTURO         Minha casa na fazenda era grand...