terça-feira, 24 de janeiro de 2017

HISTÓRIA DE ITAMBÉ - PARTE 3




A fundação de Itambé

Itambé – Distrito de Marialva
João Cortez Capel
O nome do Distrito
O menino que viu Itambé nascer
Desmatamento
Área Urbana
Cultivo de hortelã menta
O café
Criação de animais
Sindicato dos Trabalhadores Rurais


                             ITAMBÉ – DISTRITO DE MARIALVA
           O território onde hoje é Itambé, até o início da década de 40, pertencia a Londrina, município que se estendia até o Rio Paraná, tendo aproximadamente 22.400 km2.
      Nesta época, havia apenas 49 municípios no Estado.  Já em 1943, grande parte das terras passaram a pertencer à Apucarana, que herdou de Londrina 18.658 km2, tudo coberto de Mata Atlântica.
   Em 1947, quando começou a ser colonizado, Itambé pertencia a Mandaguari, que se estendia por 14.000 km2 e três distritos: Marialva, Maringá e Paranavaí. Em 1951, os três distritos foram emancipados. Marialva, com 21.369 habitantes, tornou-se município com dois distritos: Marialva e Itambé, em 1954, foi criado mais um, Sarandi.

Município de Mandaguari, 1947.
(site pesquisado em 2012)

          Toda a colonização do Norte do Paraná começava com a demarcação das terras. Para tanto, havia o trabalho do agrimensor. De acordo com a Wikipédia, agri vem de agrícola e mensor de se refere à medida. Sendo assim, o agrimensor tem o papel de medir e dividir propriedades nas áreas rurais e urbanas. Esta função surgiu no antigo Egito. Como o Rio Nilo transbordava todos os anos apagando as marcas físicas de divisões de propriedades, o Faraó resolveu o problema nomeando um profissional para medir e dividir as terras novamente: o agrimensor.
           Para ilustrar como era a vida dos agrimensores, recorreu-se ao depoimento da viúva de um destes profissionais, Dona Rosalina Maria Aparecida da Silva, mais conhecida como D. Rosa Bandeira. Ela veio para cá em 1943 acompanhada de seu esposo, um agrimensor contratado pelo Governo do Estado, o Sr. Francisco da Silva, popular Sr. Bandeira. Ele mensurava as terras da margem esquerda do Ivaí, hoje Quinta do Sol, que pertenciam ao Estado. Dona Rosa afirma que em Itambé só havia uma picada por onde passavam com muita dificuldade.
Dona Rosa e o carro com que desbravavam o sertão
Fonte: Família Bandeira

            Ela lembra que eles vinham de Japurá e chegavam até o Ivaí de carro por picadas abertas na mata, era preciso desviar dos troncos, atravessavam o rio na Balsa Ilda, também subiam por ele de bote a motor. Era necessário levar pouca bagagem, alimentos só até dez quilos. A gleba a ser mensurada era localizada por mapas e por indicação de pilotos de avião que sobrevoavam o local.
           Para abrigar-se durante o trabalho, o agrimensor e sua equipe faziam barracas de lona, cercadas com folhas de palmito, a cama era um lençol no chão, não havia nenhum conforto. A equipe mudava-se a cada oito dias para medir e fazer picadas em outras terras. Media-se primeiro todo o entorno da gleba, que podia chegar a dois mil alqueires, depois esta era subdividida em pequenos lotes e os picadeiros, homens que ajudavam no trabalho, abriam caminhos para se chegar a cada lote, chamados de picadas. O desmatamento da área ficava por conta de quem adquirisse as terras. Geralmente as madeiras mais nobres eram vendidas e o restante da mata era aniquilado pelo fogo. Assim fazia-se a “limpeza” da área para o cultivo da terra.

Barracas montadas pelo agrimensor e sua equipe

Fonte: Família Bandeira
             
         De acordo com Dona Rosa, havia dificuldade em vender os lotes porque ninguém queria terras devido à malária. Ela afirma ter contraído várias vezes a doença. Então os lotes eram vendidos a famílias que já estavam vivendo na região.
         Outro problema encontrado por Dona Rosa eram os animais que invadiam o acampamento. Diariamente, quando ela ia lavar os pratos no rio, porcos do mato cercavam as barracas à procura de alimento. Só iam embora quando ela fazia muito barulho. Havia também onças, jacarés e veados.

Veado nadando no Rio Ivaí em 1951
Acesso: 29/03/2015

         Tempos depois da abertura das terras de Quinta do Sol, a Família Bandeira resolveu estabelecer-se à margem esquerda do Ivaí, adquirindo um lote de terras do Governo do Estado, mas possuía uma casa em Itambé, onde os filhos moravam para estudar. Então, para atravessar o rio, eles construíram uma pequena balsa com tambores de óleo diesel e tábuas, que era puxada por cordas. Depois foi feita uma balsa maior movida a motor. 

Primeira Balsa – Fonte: Família Bandeira

Segunda Balsa da Família Bandeira
Fonte: Família Bandeira

          O condutor da balsa, entre 1975 e 1980, foi o pernambucano Sr. Celestino Barbosa da Silva, que vive às margens do Ivaí desde 1963. O rio era atravessado por tratores, carros, máquinas agrícolas, caminhões, com destino à Quinta do Sol, Barbosa Ferraz ou Campo Mourão. Segundo Celestino, a balsa tinha a capacidade de levar doze carros de uma só vez ou oito caminhões carregados. A travessia durava cerca de quatro minutos. Mas um dia, furou o batelão da balsa, choveu um dia e uma noite, encheu de água e não foi possível retirá-la. Um trator foi usado para rebocá-la, sem sucesso. Então a água do rio foi subindo, os cabos de aço que prendiam a balsa romperam e ela afundou.
Senhor Celestino, o balseiro
(site pesquisado em 2012)


                    Um dos agrimensores que ajudaram a demarcar as terras de Itambé foi o Senhor José Bianchessi, catarinense de Botuverá. Por desentendimentos com a família, José mudou-se para Norte do Paraná, onde começou a trabalhar como picadeiro na Companhia Melhoramentos, até tornar-se agrimensor leigo. No final da década de 40, ele conseguiu emprego para o primo Oswaldo Bianchessi na mesma Companhia. Este, por dois anos, fez picadas para demarcar os lotes e também cozinhou para os outros picadeiros. Além de prestar serviços em Itambé, Oswaldo trabalhou em São João do Caiuá, Santo Antônio do Caiuá e Paiçandu.
         Estudos realizados pela Professora Elizabete Aparecida Moreno mostram que a Companhia Melhoramentos Norte do Paraná começou a demarcar e lotear a região de Itambé por volta de 1944.

Agrimensores e picadeiros que trabalharam em Itambé

Fonte: Família Bianchessi



           

                                         JOÃO CORTEZ CAPPEL

          O responsável pela colonização de Itambé foi o Senhor João Cortez Capel, corretor de imóveis da Cia. Melhoramentos Norte do Paraná. De acordo com a REVISTA CAFÉ, de 16 de maio de 1951, Londrina, Cortez nasceu na província de Almeria, Espanha, a 4 de fevereiro de 1905; filho de Indalécio Cortez Felices e Ana Cappel Sanchez. Aos doze anos de idade já começou a trabalhar num armazém em sua cidade natal. Aos treze, empregou-se juntamente com seu pai numa empresa de extração de minérios, onde conseguiram juntar algumas economias.
João Cortez Capel, fundador de Itambé
Fonte: Fabrícia Cortez

        Em 1917, eles tomam conhecimento que uma firma de Gibraltar, na Península Ibérica, estava enviando emigrantes para o Brasil. Pai e filho foram até àquela cidade, mas chegando lá receberam a notícia que, devido à Primeira Guerra Mundial, o tráfego marítimo estava suspenso. Então eles decidiram trabalhar naquela cidade mesmo. Em 1919, terminada a guerra, a navegação se normalizou e, enfim, a família veio para o Brasil abordo do velho navio francês Aquitanie. A viagem durou 43 dias; o desembarque se deu no dia 14 de outubro. A princípio, instalaram-se na Casa dos Imigrantes em São Paulo, capital. Depois seguiram para a Fazenda Capuava, em Guariba, no mesmo Estado, trabalhar no cultivo de café. Lá, João Cortez Cappel ouviu as histórias dos bandeirantes que desbravaram os sertões do Paraná e começou a sonhar em ser também um desbravador.
        A família Cortez trabalhou por dezoito anos em diversas fazendas até que conseguiu adquirir um sítio de 20 alqueires em Cafelândia, São Paulo. Porém, as intempéries climáticas e as formigas prejudicavam a produtividade. Então João percebeu que havia muita argila no sítio, fez um empréstimo de 10 contos de réis com o Dr. Gilberto Figueira e montou uma modesta olaria na propriedade. Formou um estoque de 180.000 unidades de tijolos, mas quando foi vender o produto, ele descobriu que o milheiro só valia 50 mil réis.
      Depois, João partiu para a atividade veterinária, como castrador de animais, tornando-se assistente do perito Eduardo Martins. Em pouco tempo, tornou-se melhor profissional que o mestre e sua fama espalhou-se por uma vasta zona do Estado de São Paulo. Todos os pecuaristas solicitavam seu trabalho, a prosperidade começou aqui.
     Mas João ainda se lembrava do sonho de ser desbravador. Em 1936, espalhou-se a notícia de uma obra gigantesca: a colonização do Norte do Paraná. Cortez, decidido a dar uma vida melhor para os pais, segue para o Paraná em março do mesmo ano. Chegou a Cornélio Procópio com 16 réis e hospedou-se no Hotel do Norte. Saiu à procura de emprego e, por intermédio do Sr. Manoel Calvo, conseguiu trabalho de castrador na Fazenda do Coronel Bresser. O segundo trabalho, também por intermédio de Calvo, foi na Fazenda Matarazzo, a 24 quilômetros de Cornélio Procópio. E, assim, de fazenda em fazenda, Cortez permaneceu por três meses. Em seguida, voltou a Cafelândia, vendeu o sítio e a olaria.  Como estava viúvo, casou-se com Jeruza Gomes no dia 31 de dezembro de 1936. Retornou oito dias depois a Cornélio Procópio e, com os quatro contos de réis da venda das propriedades, ergueu uma casa modesta num rancho. Abandonou a profissão de castrador e ingressou na Companhia de Terras Norte do Paraná, como corretor, no cargo de subgerente. Meses depois, em substituição ao agente João Schiavina, tornou-se agente autorizado da Companhia.

Cappel com seus pais: Indalécio Cortez Felices e Ana Cappel Sanchez
Fonte: Fabrícia Cortez

        Mesmo em um alto cargo, os resultados financeiros eram modestos devido à falta de propaganda sobre as terras. Então Cortez tornou-se também mascate para ampliar sua receita. Além disso, trabalhou novamente como castrador e fotógrafo, uma das antigas profissões de seu pai. Quando a Cia. passou a investir em propaganda, as vendas de terras aumentaram, pois agricultores de todo o país vinham adquirir lotes no Norte do Paraná. Assim foi possível a Cortez abandonar suas outras profissões e dedicar-se apenas à corretagem de terras. Com o sucesso de seu trabalho, a Cia. nomeou-o vendedor exclusivo dos lotes de Cornélio Procópio e Bandeirantes. Em 1941, o corretor mudou-se com a família para Cambé, onde construiu uma casa. Porém, por ordem da Cia., precisou voltar para Cornélio Procópio, a fim de ficar mais próximo do local de suas vendas. Já em 1944, passou a residir em Londrina. 
João Cortez Cappel no seu escritório em Londrina
Fonte: Fabrícia Cortez

         João Cortez Cappel também se dedicou a agricultura, adquiriu doze alqueires em Mandaguari para cultivar café. Mas, devido à distância das terras em relação à Londrina, vendeu-as e adquiriu outros lotes em Astorga. Com o trabalho de corretor e cafeicultor, ele enriqueceu. Cortez negociou terras em várias partes do Norte paranaense.
        Ele próprio relatou à Revista Café que estava difícil vender lotes da Gleba Ijuí, atual Município de Itambé, mesorregião do  Norte Central Paranaense, pois a região ficava longe de qualquer cidade ou distrito que abastecesse os agricultores. Então, tomou uma importante decisão: construir uma cidade com seu dinheiro. Como se pode ver na citação abaixo:
Localização de Itambé no mapa do Paraná
Fonte: Google Imagens

        “Quando a Companhia Norte do Paraná resolveu abrir a zona de Itambé, loteando-a para venda, João Cappel notou certo retraimento de parte dos prováveis compradores. Procurando inteirar-se das causas de tal atitude, teve a solução, e compreendeu perfeitamente o que havia a fazer.
         A longa distância da gleba a mais próxima condução ou posto de abastecimento dificultava sobremaneira a colonização da mesma.
         Não teve outra idéia o dinâmico Cortez Cappel, imediatamente traduzia em grave compromisso: se a Companhia não fundasse nessas terras um patrimônio-sede, com os estabelecimentos comerciais necessários à vida de seus habitantes, ele, João Cortez Cappel, comprometia-se a fazê-lo, à sua própria custa.
         Nada conseguindo da Companhia, cumpriu a promessa: montou bem aparelhada serraria, bastante para construções no patrimônio como aos sítios vizinhos; construiu o Grupo Escolar e uma boa Igreja; estabelecimentos comerciais para alugar e alguns abastecidos por si próprios; presentemente iniciadas foram as construções da Cadeia Pública, da estação Rodoviária e muragem do cemitério, tudo por conta do seu bolso.”

(Fonte: Revista do Café e Açúcar, Maio Junho de 1951, pág. 104)

Propaganda de lotes de Itambé
Fonte: Revista do Café e Açúcar, Maio Junho, 1951, pág. 40


             Então, em 1951, Cortez comprou um lote na Gleba, onde fica hoje a cidade de Itambé. Fez um mapa urbano, dividindo a área em ruas, quadras, terrenos e praças. Registrou o mapa em Curitiba e começou a vender estes terrenos às famílias que migravam para cá. Sendo assim, todas as primeiras escrituras destes terrenos estavam em nome de João Cortez Cappel. Até hoje, há lotes que ainda não foram transferidos e estão em seu nome. 

Mapa de Itambé registado por Capel.
Fonte: Elizabete Aparecida Moreno

            É interessante verificar que o mapa de Cortez possuía o mesmo traçado que a cidade de Itambé tem até hoje. Isto mostra que a organização proposta pelo agrimensor foi respeitada, com poucas ressalvas, como o local onde está a Igreja Matriz Nossa Senhora das Graças. De acordo com o mapa de Cortez, ela deveria ter sido construída bem no centro da Praça Rui Barbosa e, onde a Igreja está hoje, seria uma rua. Além disso, os conjuntos habitacionais não estavam previstos no mapa. O Sr. Jovânio Pereira dos Santos conta que até os nomes das ruas foram escolhidos por ele. Quando a pioneira Pelarga Buchinski Schischoff chegou a Itambé, em 1947, a Avenida São João se chamava Avenida João Cortez. A Rua São Pedro leva o nome do filho mais velho de João, Pedro, assim como a Rua Santo Indalécio leva o nome de outro filho e também do pai de João, Indalécio. A antiga Rua Santana, hoje Rua Dr. Lafayette Grenier, levava o nome da filha de João Cortez, Ana; já a Rua dos Expedicionários é uma homenagem aos expedicionários na 2ª Guerra Mundial. A Rua das Loudes, hoje Rua Antônio Belaski Garcia, foi em honra à sua outra filha. Com o passar do tempo, alguns nomes de ruas foram mudados, mas outros permaneceram.

Jesusa, esposa de Cortez, e seus filhos que nomearam as ruas de Itambé:
Lourdes, Ana, Indalécio e Pedro.
Fonte: Fabrícia Lopes Cortez de Abreu

        Assim nasceu Itambé, da firme determinação de um homem, que investiu seu próprio dinheiro e energia para ajudar a construir novos sonhos. Segundo o pioneiro Antônio R. Machado, a seriedade e honestidade de Cortez estimularam os agricultores a adquirirem lotes em Itambé.
        Cortez oferecia os lotes daqui a moradores de Londrina, Uraí, Bandeirantes, Cornélio Procópio, que adquiriam sítios e se mudavam para cá. Inicialmente foi sendo habitada a zona rural da localidade.
       Os primeiros lotes foram comprados em 1946. Massakasso Honda adquiriu vários e os distribuiu para seus filhos. Ovídio Pinto Mello, que também adquirira um lote em 46, na Estrada Gabirobeira, vendeu seus direitos a Luiz Dela Colleta. Outros compradores foram: Gaudêncio Severo Luís e Mário Machado, este na região do Guerra. Joaquim Rogério (Menino) comprou um lote que denominou Fazenda São Paulo, ele morava em Cornélio Procópio, mas mudou-se para cá, começou a desmatar o lote e a criar suínos. José Santana, de Bandeirantes, comprou terras na nascente da Moóca. Platão Herotides da Veiga e seus irmãos Chinofonte e Sócrates também adquiram sítios na região da Água da Moóca.

Recibo da primeira parcela de pagamento das terras de Ovídio Pinto Mello,
posteriormente vendidas a Luiz Dela Colleta. Fonte: Família Dela Colleta

             João Cortez Cappel, após vender a maioria dos lotes e terrenos, nomeou seu filho Pedro para continuar seu trabalho e foi para a região onde hoje se encontra Francisco Alves abrir aquele município. Cortez faleceu a 13 de maio de 1984 de parada cárdio respiratória, insuficiência cardíaca e diabetes mellitus, aos 79 anos de idade, em Francisco Alves/PR.
             Anos mais tarde, em 1963, na gestão do Prefeito João Antônio Claro, surgiu a Vila Persona, que foi desmembrada do lote 44, pelo Senhor Simão Persona com autorização da Prefeitura Municipal. Todo o loteamento da Vila era composto por 61 lotes, isto é, não contando com a reserva onde hoje está a Praça Massakasso Honda. A área ficava entre as Ruas Luís Lopes, dando continuidade da Rua Santana, hoje Rua Dr. Lafayete Grenier, as laterais, Rua Santo Indalécio até no fim da Rua Paraíba, saída para Akidabam, e a continuação da Avenida São João até o local onde hoje está instalado o Hospital Municipal. Os cruzamentos que faziam parte do lote eram das ruas Clarindo R. Santana, Elizabete Bróio e Rua Rômulo Bessani, que anteriormente eram denominadas apenas com números.

                                   O NOME DO PATRIMÔNIO

Estrada Keller, primeiro caminho para Itambé
Fonte: Revista Itambé, 1984

         Todo nome tem uma história. Já o nome de Itambé possuiu várias histórias. Inicialmente, o patrimônio foi conhecido como Vila do João Cortez. Uma das teorias para o nome “Itambé” é a seguinte: o pioneiro Antônio Rodrigues Machado conta que a única via que dava acesso ao Distrito de Itambé era a Estrada Keller, que liga Itambé à Cambuí. Nesta estrada há muitos morros, daí poderia ter surgido o nome do patrimônio. Pois segundo o Plano Diretor, Itambé é de origem tupi e significa: “i’ta” pedra e “aim’bé” afiada, penedo, pontiagudo. Alguns autores ainda classificam como “beiço de pedra”, por J. F. da Fonseca, ou Xavier Fernandes, “pedra oca”, ou ainda “despenhadeiro, precipício”, segundo Aurélio Buarque de Holanda.
      Outra teoria é que o nome teria sido sugerido por um picadeiro sertanejo que vivia em Itambé, na Bahia. Segundo relatos da Prof. Elisabete Aparecida Moreno, este baiano achou que a geografia daqui se assemelhava a de seu município natal. Isto teria acontecido logo que a Companhia Melhoramentos Norte do Paraná abriu a Estrada Keller, em meados da década de 40.
       Mas, segundo Oswaldo Bianchessi, que trabalhou como picadeiro na abertura destas terras, o nome foi motivado pela grande quantidade de cipó imbé e pelos artefatos indígenas aqui encontrados.

Cipós, Mata do Nicola
Foto: Denizia Moresqui

                          O MENINO QUE VIU ITAMBÉ NASCER
Antônio Rodrigues Machado, o menino que viu Itambé nascer, aos 77 anos
Foto: Denizia Moresqui

         A primeira família que se cultivou terras aqui, Machado, veio de Cornélio Procópio. Mário Machado e seu filho Antônio, então com 12 anos, instalaram-se em Cambuí, na fazenda São Pedro, numa casa feita de palmitos e coberta com tabuinhas, na cabeceira do Ribeirão Ijuí.

Exemplo de casa feita de lascas de palmito e coberta com tabuinhas, Maringá

Fonte:http://maringaparanabrasil.blogspot.com.br/2012/06/memoria-as-cores-do-norte-do-parana.html

         Eles compraram cinco alqueires diretamente da Cia. Melhoramentos e pagaram um conto de réis e trezentos o alqueire. Os Machado vinham a pé até Itambé para abrir seu lote. A primeira vez que Antônio veio ao Patrimônio, encontrou os funcionários da Cia. Melhoramentos abrindo uma rua no meio da mata, que seria a Avenida São João. Os picadeiros estavam alojados próximos a uma nascente denominada Água Ipacaraí, hoje conhecida como Água da Serraria. Os Machado foram até lá matar a sede. O menino ficou encantado com a beleza do lugar, cheio de samambaias. Ele ainda descreveu as nossas matas, dizendo que a beleza que encontrou aqui nunca vira em lugar nenhum.

Nascente de água que encantou o menino Toninho

Foto: Denizia Moresqui

           A picada aberta pela Cia. só chegava até a Gabirobeira, depois havia apenas matas. Para abrir suas terras, pai e filho utilizavam ferramentas rudimentares, como traçador, cavadeira, machado e foice. A espingarda também era essencial para a sobrevivência, já que havia onças e outros animais perigosos na região. Finalmente após aberta a mata, no dia 16 de outubro de 1947, os Machado se mudaram para o local que depois seria conhecido como Guerra. As primeiras terras abertas em Itambé foram estas e as do Perobal.

                                          O DESMATAMENTO

              Segundo a Monografia da Prof.ª  Lúcia de Melo (1997), apresentada ao curso de Geografia da Universidade Estadual de Maringá, Itambé possui condições ideais para a formação de florestas exuberantes, pois além do solo fértil, conta com clima mesotérmico úmido, variando de 15 a 25ºC. Assim desenvolveu-se aqui a vegetação Mata Pluvial Tropical dos Planaltos do Interior, com árvores de grande porte.
               Mas, se hoje uma das principais preocupações da humanidade é preservar a natureza, tanto flora quanto fauna, na abertura das terras do Norte do Paraná, a meta era o oposto. Para cultivar a terra era preciso abrir espaço na mata e expulsar ou eliminar animais que trouxessem riscos aos colonos. Além disso, nos primeiros anos, sem produção e renda, a caça e a pesca eram formas de subsistência.
Agricultores com a caça: um veado, 1948
Fonte: Gertrude Granero

              Então entraram em cena foices, machados, traçadores, fogo, e a floresta foi trocada pela terra nua onde seria cultivado o futuro de muitas famílias. Naquela época, não havia ainda a consciência ecológica que poderia permitir o desenvolvimento sustentável. O momento histórico e a necessidade tornavam o desmatamento desta região imprescindível ao progresso. Foram abaixo perobas, cedros, imbuias, canelas. Com o fim da mata, os animais foram caçados, mortos pelos incêndios ou fugiram, entre eles havia: onças, cotias, pacas, anta, tatu, jaguatirica, macaco, porcos do mato, veados, jacupembas, tamamduás, quase todos foram se desaparecendo da região.

              Desmatamento de Itambé – 1950. Fonte: Prefeitura Municipal de Itambé


       Segundo o Sr. Celestino Barbosa da Silva, que trabalhou como picadeiro em Itambé e Quinta do Sol, para descendentes de japoneses que cultivavam hortelã menta, o desmatamento era feito da seguinte forma: o mato baixo era roçado com machado e foice, depois derrubavam-se as árvores grandes também com machado. Eram necessários oito dias para “limpar” um alqueire. As madeiras nobres eram levadas às serrarias e o resto virava lenha usada nos alambiques de hortelã. O tamanho e a circunferência das árvores eram impressionantes, devido à fertilidade da terra.
Família Vertuan em frente a uma árvore no Couro do Boi
Fonte: Renata Vertuan

       Outro pioneiro que também fixou moradia no Guerra foi o Sr. Aluízio Linhares Monteiro. Sua filha Sônia L. M. Chicralla conta que o pai soube das terras de Itambé por intermédio de seu irmão que era viajante, vendia fumo para todo o sul do país. Na época o Sr. Aluízio, fluminense de Sapucaia, estava morando em Miraí, Minas Gerais. Ele viajou ao Rio de Janeiro de carro, depois de avião para Londrina. Até Itambé, o caminho foi percorrido de caminhonete 48. Junto com ele veio seu cunhado Aristides Cumani. Depois de comprar terras da Cia., o Sr. Aluízio e sua família começaram a desmatá-las. Eles faziam este trabalho da seguinte forma: cortavam-se as árvores, que chegavam a mais de um metro de diâmetro, com machado, em seguida eram puxadas por cordas e cortadas com traçador, um serrote manuseado por duas pessoas, por fim a madeira era vendida para as serrarias.
Sr. Aluízio Linhares Monteiro na época do desmatamento de Itambé (1950)
 Fonte: Família Linhares Monteiro
        
           O Senhor Olímpio Bianchessi conta que veio a Itambé em 1950 visitar sua irmã que morava no Bairro Catarinense. Quando chegou aqui, ficou encantado com o relevo e a fertilidade da terra. Ele percebeu a grande diferença entre Itambé e Botuverá, lugar onde vivia. O distrito catarinense era montanhoso com poucas áreas cultiváveis, trabalhava-se muito para apenas manter a subsistência; enquanto que, em Itambé, as altas florestas sinalizavam a riqueza da terra, além disso, havia poucas ondulações no solo, o que permitia o cultivo em quase toda a extensão dos lotes. Segundo Olímpio: “um paraíso”. Ele vislumbrou um futuro promissor em Itambé. Como ainda estava com dezenove anos, escreveu uma carta aos pais pedindo permissão para ficar morando aqui. Eles responderam que, se o filho visse que haveria futuro em Itambé, poderia ficar; se não, que voltasse para casa. Então Olímpio ficou e, com o pouco dinheiro que tinha, comprou um machado e alguns utensílios de cozinha. Depois começou a desmatar um alqueire e meio de seu parente Arcênio Bianchessi para plantar três mil pés de café. Ele conta que dependendo da árvore, era preciso um dia e meio de serviço para cortá-la, dada sua espessura. O trabalho começava de madrugada e só parava à noite. Suas mãos ficavam cheias de feridas que eram curadas com salmoura. Após derrubar boa parte da mata, ele tentou limpar o terreno com fogo, mas como ainda havia muito mato e sombra, as chamas se apagavam. O Senhor Arcênio sugeriu que ele deixasse para acabar o serviço no próximo ano. Mas Olímpio não queria esperar tanto. Juntou as toras e cortou o mato com foice e assim conseguiu limpar o terreno e plantar café. Para sua sobrevivência plantou milho e feijão entre as ruas. 
Desmatamento, construção de casas e cultivo de café
na Fazenda Ouro Verde
Fonte: Família Meyer
       
        O Senhor Paulo Bogenschneider e seus cunhados, os irmãos Bindewald, João, Alberto e Henrique, também participaram do desmatamento, transportando a madeira para Mandaguari e outras cidades, onde era vendida. Paulo era natural da Alemanha, chegou ao Brasil em 1921, fixando-se em Presidente Venceslau/SP, no Estado, trabalhou em serrarias, casou-se com Lídia Bindewald em 1928. Em 1947, mudou-se para Mandaguari e, com os cunhados, trabalhou na serraria de Guilherme Meyer, extraindo e transportando as madeiras de Itambé. Aqui, eles receberam um lote do Sr. João Cortez Cappel e construíram uma das primeiras casas do Patrimônio. Os irmãos Bindewald eram da Romênia e imigraram para o Brasil em 1926, também residiram em Presidente Venceslau. Além de madeira, eles levavam pessoas sobre as toras até Mandaguari, pois poucos eram os meios de transportes.
          Como havia muita oferta desta matéria prima, os preços não eram elevados e madeiras nobres do Norte paranaense eram usadas até para fazer engradados de refrigerantes.
          Após o desmatamento, as famílias partiam para o cultivo da terra. Inicialmente eram cultivados hortelã e café. Ambas as culturas eram produto de exportação, com vendas certas e extremamente rentáveis, mas necessitavam de muita mão de obra. Na época não existia a profissão de boia-fria. Quem trabalhava para os proprietários de terras eram os meeiros, pessoas que prestavam serviço na lavoura e recebiam porcentagem da produção. Quanto maior o lucro do proprietário, maior a renda do meeiro. Dessa forma, muitas famílias se mudaram para Itambé, pois, mesmo quem não tivesse capital para comprar as terras da Cia., poderia trabalhar para os outros até juntar dinheiro e poder adquirir seus próprios lotes.
Colônia de meeiros de café na Fazenda Monte Alto
Fonte: Paulo Tadashi Honda


                                             ÁREA URBANA
Avenida São João, década de 50
Fonte: Prefeitura Municipal de Itambé

           Na área urbana, o projeto de Itambé traçado por Cortez Cappel começava a tomar forma com a chegada dos primeiros comerciantes. Quando a Senhora Francisca Cardoso Rosa chegou ao Patrimônio, em 1947, estava com catorze anos, mas já era casada com José Noé da Silva e trouxe seu primeiro filho, com vinte dias, nos braços. Aqui só havia mata, que foi derrubada por Paulo Xavier e picadeiros contratados por Cortez, depois um grande incêndio fez a “limpeza” do local onde seria instalado o Patrimônio. Francisca e José conheceram o Senhor Paulo Tutti, que comprara um terreno, na Avenida São João; hoje há no local uma revendedora de botijões de gás. 

(Seta) Primeira casa e comércio de Itambé:
Venda do Paulo Tutti
Fonte: Prefeitura Municipal de Itambé

        Paulo queria construir uma venda de secos e molhados com uma casa nos fundos; então perguntou a José se ele conhecia algum carpinteiro. José respondeu que ele era carpinteiro. Então Paulo Tutti o contratou para o trabalho: construir a primeira casa de Itambé. O prédio de madeira, que abrigou o primeiro morador e a primeiro comércio do Patrimônio, resistiu até outubro de 2003, quando foi destruído num incêndio. Além deste prédio, José também construiu outras casas, como a que existe até hoje no endereço: Rua São Pedro, nº 340; uma pensão, a venda de João Noé, na Avenida São João esquina com Rua XV de Novembro, onde atualmente há uma sapataria. 

Seta: José Noé da Silva, construtor da primeira casa e comércio de Itambé
Fonte: Francisca Cardoso Rosa

          Infelizmente, um acidente mudou para sempre a vida do casal. José, na época com 38 anos, estava construindo um alambique de hortelã na Fazenda São Sebastião. Então, uma viga de madeira de 30 cm. de diâmetro e 6 m. de comprimento, que era puxada por um trator,  caiu em cima de José quebrando-lhe a coluna. Após muitos meses de tratamento em Maringá e Curitiba, voltou para casa e ficou para sempre na cama, pois não aceitou a cadeira de rodas. Mesmo nesta situação, continuou a trabalhar, construindo brinquedos de madeira e consertando utensílios domésticos. Dez anos após o acidente, José faleceu.
             O Senhor João Naujalis também chegou a Itambé em 1947, com sete anos de idade, acompanhando seu pai, Antônio Naujalis, imigrante da Letônia. Segundo João, havia aqui apenas duas casas de madeira, uma era o armazém do Paulo Tutti e outra era a pensão do Senhor Paulo Xavier, onde ficavam os picadeiros. Havia também casas de palmito e tabuinha, a cidade era composta por seis quadras desmatadas e cercadas pela densa floresta. Nesse ano, família Lopes já administrava a serraria.
Caminhão sendo carregado de toras para a Serraria da Família Lopes
Fonte: João Naujalis

            O senhor Antônio Naujalis adquiriu a pensão de Xavier e passou a receber os pioneiros que vinham a Itambé desmatar suas terras. A família Naujalis administrou o negócio de 1947 até 1953, quando mudou-se daqui por causa de uma geada seguida do incêndio nas lavouras.
                  Em junho de 1948, um estudante de farmácia visitou o distrito de Itambé, o jovem Mauro Nakamura. Ele lembra que encontrou a área urbana já desmatada e com os lotes demarcados.
Moradores de Itambé
Fonte: Mônica Osvaldo do Nascimento

               Aqui, Mauro conheceu o Sr. Antônio Naujalis. Conheceu também a família do Sr. Augusto Fernandes Cumbar, que fazia as refeições para os visitantes, o Sr. Paulo Tutti, o Sr. Paulo Xavier, descendente de africanos, que era empreiteiro e administrava a derrubada das matas, o Sr. Paulo Bogenschneider, que tinha um bar no Patrimônio, o Sr. Luís Lopes, dono da serraria, entre outros. Apesar da geada e das dificuldades que enfrentou nesta primeira visita, Mauro Nakamura gostou muito do lugar. Então, quando recebeu seu diploma de farmacêutico em dezembro de 1948, decidiu vir trabalhar em Itambé. Morou em Marialva até 1950, depois construiu sua casa neste distrito e mudou-se definitivamente para cá.


                                CULTIVO DE HORTELÃ MENTA
Agricultores cultivando hortelã menta
Fazenda Jan
Fonte: Ademar Adão Rodrigues

               Apesar de todas as dificuldades enfrentadas pelos moradores, Itambé crescia devido à fertilidade da terra e a cultura do café. Também eram cultivados o milho e o feijão. Mas a lavoura que apresentou uma grande riqueza para o Patrimônio foi a hortelã menta. Imigrantes japoneses que viviam em São Paulo vieram para cá, desmataram as terras, plantaram o hortelã e montaram alambiques. Depois a família Schlatter aderiu a esta cultura e também montou um alambique.


Transporte da colheita da hortelã menta. 1959
Fonte: Família Linhares Monteiro

              A hortelã dava corte a cada noventa dias, uma produção elevada. Outro fator positivo desta lavoura para o avanço populacional da região era a necessidade de mão de obra. Numa propriedade de dez alqueires de terras, havia trabalho para cinco ou seis famílias. Pois era preciso uma família para cuidar de dois alqueires de hortelã. Até nos terrenos vazios da zona urbana, havia plantações, devido a sua rentabilidade. Tanto no cultivo como na transformação da hortelã em óleo nos alambiques, o trabalho humano era essencial. Itambé chegou a ter mais de quarenta alambiques.

Almabique de hortelã
Fonte: Família Lemos

            Quando o óleo estava pronto, era vendido por um alto preço. O Senhor Osvaldo Henrique dos Santos era produtor de óleo de hortelã e representante da Brasway e da Brasmentol em Itambé e região. Osvaldo comprava o produto dos agricultores e os transportava até a empresa em Maringá. Na cidade de Itambé havia um entreposto de coleta do produto. As empresas usavam o óleo na fabricação de creme dental eoutros produtos de higiene e limpeza. Além disso, o óleo era usado também na produção de medicamentos, como pomadas e cremes para machucados.


Pipas de hortelã do Sr. Bernardino de Oliveira
Fonte: João Naujalis

          A hortelã itambeense também era exportada para Estados Unidos e Japão. Porém o tempo de produtividade desta cultura é curto. Após a derrubada da mata, cultiva-se a hortelã de quatro a oito anos, depois há uma queda nas colheitas. Mas quando isto aconteceu, Itambé já alavancara seu desenvolvimento. O Senhor Osvaldo ainda comercializou hortelã até 1977, buscando-o em outras regiões do Paraná.

Transporte do óleo de hortelã
Fonte: Família Lemos

                                                 O CAFÉ
          O café foi descoberto na Etiópia e difundido para o mundo por meio do Egito e da Europa. De acordo com a Wikipédia, a palavra café vem de qahwa, que em árabe quer dizer vinho. A planta teria sido descoberta por um pastor de ovelhas. Ele observou que os animais ficavam mais espertos quando comiam as folhas e frutos do cafeeiro. Então, sabendo do fato, um monge teria feito infusões com as folhas da planta para ficar acordado nas madrugadas durante suas orações. Em 1727, o sargento-mor Francisco de Melo Palheta trouxe da Guiana Francesa, clandestinamente, a primeira muda de café para o Brasil. E, como já foi mencionado, o primeiro grande produtor de café no Paraná foi Antônio Barbosa Ferraz.  Na colonização, todo o Norte do Paraná produzia café e Itambé seguiu a mesma linha. 
Cafezais de Itambé, Fazenda Primavera
Fonte: Zilda Mancine

          Com o fim da era da hortelã menta, o café tornou-se uma monocultura, cobrindo todas as propriedades rurais itambeenses. Como sua produção necessitava de muita mão de obra, várias colônias formaram-se nas fazendas. Famílias de diversas partes do Brasil migravam para cá a fim de fazer a vida trabalhando com o café.
         O Senhor Argentino Bianchessi, em entrevista às professoras Elisabete Aparecida Moreno e Maria Helena Zampar dos Santos, relatou que o café era cultivado da seguinte forma: plantava-se a semente no solo, numa cova com uns 30 centímetros de profundidade e depois a cobria com lenha. As covas eram feitas a quatro metros de distância uma da outra. Quando a planta nascia, fazia-se a limpeza ao redor dela. A primeira colheita viria quatro anos após o plantio.

Café secando no terreirão. Ao fundo, secador de café
Fonte: Família Moreschi
         
          Inicialmente, tanto o café quanto outros produtos agrícolas eram vendidos a negociantes vindos de fora. De acordo com o relato do Sr. Alcides Benossi, dois deles eram os Senhores Severino e Ernesto Valério que compravam os produtos dos agricultores de Itambé para revendê-los. Gibson Linhares Monteiro e Milton Linhares também compravam feijão e milho, os transportavam pela estrada da Ponte Preta até Maringá e Mandaguari, onde revendiam os grãos. Massakasso Honda comprava a produção dos agricultores, as revendia em Londrina e, de lá, trazia mercadorias para seu armazém de secos e molhados.

Estrada da Ponte Preta, por onde a produção agrícola era escoada
Fonte: Família Meyer.

          O senhor Antônio Pelatti relata que a produção dos cafezais era tão grande que os galhos quebravam pelo peso das cargas. Um vizinho de Pelatti produzia café em oito alqueires, como os galhos já estavam quase quebrando, ele comprou um caminhão cheio de rolos de corda para prendê-los. Pelatti brinca: “Quanta corda nós roubamos para amarrar cabrito!”

Transporte de café, caminhão da Família Lopes
Fonte: Zilda Mancine

         Porém, frequentemente, havia eventos climáticos que atrapalhavam a vida dos agricultores. Em 1953, depois da geada, houve um grande incêndio nos cafezais que ameaçava a todos.
         Vera Eloísa de Melo Assis relatou que, após uma geada que queimou toda lavoura cafeeira, Itambé foi vitima do fogo, em 24 de agosto de 1953. Um grande e terrível incêndio tomou conta da lavoura cafeeira, que iniciava sua primeira colheita. Estas chamas começaram, provavelmente, na região da Água Bonina e se alastrou por diversas propriedades. Como não existiam bombeiros na região, os agricultores se organizaram e foram ao encontro do fogo, nem água havia, a não ser a mina da serraria e dos rios. O fogo foi vencido pelos homens que se dispuseram a combatê-lo, batendo galhos de árvores, na tentativa de apagar. Tudo foi queimado e as chamas ainda invadiram a pequena cidade. Só havia três carros carros, portanto era impossível retirar rapidamente todos os moradores da cidade. O gado e animais de toda espécie morreram.
        Neste dia, estava acontecendo um baile na cidade, chamado Baile das Bolas. As famílias desesperadas reuniram algo que possuíam de mais importância e ficaram prontas para sair. O fogo durou três dias, enquanto havia uma folha seca, ele se arribava. No terceiro dia, a chuva caiu trazendo alento à população.
         Maria Conceição Maldonado dos Santos conta que seu pai, João Maldonado Sanches, morador do Sítio São João, próximo ao Porto Figueira, juntou-se a outros agricultores para tentar conter as chamas. Durante este trabalho, não pôde ver o nascimento de sua filha Maria.
        Essa tragédia destruiu quase todos os cafezais do Patrimônio e região. O Senhor Olímpio Bianchessi se recorda que, naquele ano, ele trabalhava de meeiro, seus cafezais estavam com três anos e dariam a primeira produção no ano seguinte. Mas a geada queimou tudo e foi preciso cortar todos os pés de café e começar tudo de novo. 
            O ex-vereador Jovânio Pereira dos Santos era criança na época e lembra que durante o dia não enxergava quase nada por causa da fumaça, mas a noite ele subia nas árvores para ver a claridade produzida pelos incêndios. Ele disse: “Parecia que o mundo todo estava se acabando em fogo.” Algumas pessoas chegaram a acreditar que já era o fim do mundo anunciado na Bíblia. Com o fim dos incêndios, os agricultores voltaram a cultivar café sem perder a esperança. E a cada dia mais gente chegava a esta região.
         A maior produção de café no Paraná aconteceu na safra de 1961\62. Segundo publicação do jornal O Diário do Norte do Paraná (22-04-2012, pág. E4). O café era o assunto mais falado na região Norte do Estado. Pois a economia de todas as cidades dependia desta lavoura. Nestes anos, o Paraná foi o produtor de mais de um quarto do café mundial. A produção foi de 21,3 milhões de sacas de 60 quilos, o que correspondia a 28% da safra mundial. Porém, em 3 de agosto 1963, houve outra geada, que quebrou a produção. Depois, os cafezais ficaram secos e, no mês de setembro, mais um grande incêndio se alastrou por toda a região.

Safra de café, década de 60
Fonte: Aline Broio Rodrigues Vitorino

       De acordo com o ex-prefeito Antônio Rodrigues Machado e o ex-vereador Alcir Roberto Bianchessi, o fogo durou vários dias, queimando até casas.  As chamas que provinham do município de Doutor Camargo, avançaram por Itambé até além do Rio Keller, devastando tudo pela frente. Um duro golpe para os agricultores.  Em 65 e 66 a produtividade também não foi boa, além disso, a infestação de uma praga, denominada Praga Mineira, estragava as folhas dos cafezais e outra praga atacava os grãos. Com a exigência de café de boa qualidade para a exportação, surgiram os provadores da bebida. Como o café do Norte do Paraná era reprovado nos testes, ele ficava retido nos portos do Brasil. Isto desestimulou os agricultores a continuar nesta lavoura. Outros fatores para o desinteresse, ainda segundo o jornal O Diário do Norte do Paraná, foram os preços oscilantes, a produção desorganizada e a geada. Pelo Brasil correu a notícia de que o Paraná não era um bom lugar para investir e uma frase traduzia o desânimo dos pioneiros, publicada no O Diário, na data já referida: “O Paraná é só enganação. Quando não é geada, é poeirão.”
           O Governo Federal, através do Ministério da Agricultura, percebendo que não compensava comprar este café, já que não haveria um consumidor para ele, fez uma campanha incentivando os cafeicultores a eliminar os cafezais e partir para outras culturas.
          Mesmo assim, muitos agricultores permaneceram com o café. Alguns deles entregavam sua produção na Cooperativa de Cafeicultores de Mandaguari, COCARI, até o ano de 1973 aproximadamente.  Para facilitar o transporte da safra, nesta época, a cooperativa alugou um barracão na cidade, para onde eram levados os grãos. Depois foi construído um cilo para a instalação de um entreposto em Itambé, com recursos do Banco Nacional de Crédito Cooperativo S/A e do Banco Central do Brasil. Sua inauguração foi efetuada em 5 de março de 1975, (mas na placa de inauguração a data que conta é dia 3 de abril de 1976) com a presença do Governador Jaime Canet Junior e o Ministro da Agricultura Alisson Paulinelli. A instalação da COCARI em Itambé gerou grandes benefícios para os produtores rurais, especialmente para os associados que puderam contar com o auxílio de técnicos agrícolas na lavoura.

Inauguração da COCARI
Fonte: Família Moreschi

Inauguração da COCARI, 5 de março de 1975
Fonte: Família Moreschi
         

                                          CRIAÇÃO DE ANIMAIS
             A pecuária não se desenvolveu muito nos primeiros anos de Itambé, o número de animais era considerado pequeno. Pois, a fertilidade e o relevo do solo incentivaram os proprietários a investirem mais na agricultura. A maioria criava animais apenas para o consumo próprio. Entre as criações estavam: gado (leite e corte), suínos, ovinos e galináceos.

Criação de gado
Fonte: Família Moreschi

          De acordo com o ex-vereador Jovânio Pereira dos Santos, os maiores criadores de gado eram os proprietários das fazendas São Sebastião, Santa Margarida, Santo Cecília e Ouro Verde. Na Fazenda São Sebastião havia criação de boi búfalo e na Fazenda Ouro Verde, gado holandês. Além de gado, o Senhor Guilherme Meyer também criava suínos Durok, animais que causavam admiração por serem de grande porte.
           Havia também a criação de gado leiteiro em pequenos sítios para a comercialização na cidade, como o de Kuinto Grigoletto. Ele mudou-se para Itambé em 1951, com sua esposa Jovelina Castaldelli Grigoleto e adquiriu um sítio na Água Ibiúna, denominando-o Sítio Santa Bárbara. Na mudança, ele trouxe dezoito porcos, mas a peste suína matou tudo. Inicialmente tentou cultivar café, devido às geadas, desistiu dessa ideia e decidiu fazer pasto. Começou um rebanho com duas vacas leiteiras e passou a vender leite no Bar do Paulo e em bairros rurais, e assim, trabalhou por vinte e cinco anos.


Sítio da Família Grigoletto
Fonte: Família Grigoletto

          Dona Líbera Bassi Lopes, esposa do ex-prefeito Rafael Lopes, era grande comercializadora de galinha caipira. Ela comprava galinhas dos proprietários de sítios de Itambé e as revendia para o Rio de Janeiro.

                          SINDICATO DOS TRABALHADORES RURAIS

          Nem sempre as relações entre proprietários de terras, meeiros ou empregados eram pacíficas. Há, na história de Itambé, inúmeros relatos de desrespeito aos direitos dos trabalhadores rurais. Num caso em especial, um fazendeiro deixou os empreiteiros derrubarem toda a mata e, quando eles começariam a cultivar hortelã, o dono das terras exigia que eles saíssem de sua propriedade sem nenhum tipo de pagamento. Houve uma grande revolta entre os trabalhadores, que cercaram a casa do fazendeiro cobrando seus direitos. Mas ele conseguiu fugir, vendeu as terras e não pagou ninguém.
          Há relatos também de trabalho escravo e maus tratos. Sendo assim, havia a necessidade de um órgão que defendesse os direitos dos trabalhadores rurais, como um sindicato.     

Sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Itambé
Foto: Denizia Moresqui

              De acordo com Solange Ferreira de Lima, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Itambé surgiu em 1968 com o objetivo de amparar esta categoria. Em 1972, conseguiu a Carta Sindical e passou a ser filiado a Fetaep, Federação dos Trabalhadores da Agricultura. Este órgão fazia e faz a mediação entre patrões e empregados nas divergências trabalhistas. Quando não era possível fazer um acordo amigável, o caso era encaminhado para a justiça e acompanhado pelo advogado Dr. Eli Denis, de Maringá.
         O primeiro presidente foi o saudoso Sr. João Cristino de Freitas, depois assumiu o Sr. Lucindo Ferreira de Lima, que ocupou o cargo por quinze anos. Lucindo era mineiro de Bueno Brandão, chegou a Itambé em 1959 e trabalhou na lavoura, Bairro Catarinense. Ele participou ativamente na criação do Sindicato, foi também vereador.
          Além de atendimento jurídico, havia o odontológico no prédio do próprio sindicato, com o Dr. Luís Tadame Tadashi, que trabalhou por 30 anos no local e faleceu em 2011. O prédio, que era o antigo hospital do Dr. Antônio Godinho Machado, foi adquirido pelo sindicato em 1968 e funciona neste local até os dias atuais.

Cadeira em que o dentista Luís T. Tadashi atendeu os trabalhadores rurais por 30 anos
Foto: Denizia Moresqui

          No primeiro ano de funcionamento, o sindicato contava com 1.000 associados. No fim da década de 70, chegou a 3.800. Segundo Eurípedes Mariano do Silva, a Sindicato tinha até um time de futebol, comandado pelo Sr. Lucindo F. de Lima, com ajuda do Sr. Assis e Antônio Vertuan. Mesmo após a Geada Negra, o número de sindicalizados era grande, pois através do Funrural, Fundo Rural, todo o atendimento à saúde passava pelo sindicato. Segundo Solange F. da Silva, quando o Funrural foi substituído pelo SUS, Sistema Único de Saúde, em 1990, houve uma queda brusca no número de associados, hoje são 400, entre trabalhadores e pequenos agricultores.

Equipe do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Itambé
Fonte: Eurípedes Mariano da Silva

          Atualmente, além de análise de contratos e mediações, a instituição oferece serviços dentários, corte de cabelo, auxílio para aposentadoria, atendimento com médico oftalmologista mensalmente. Na época desta pesquisa, o presidente era o Sr. Alcir Roberto Bianchessi que faleceu em 2012. Solange Ferreira de Lima assumiu o cargo.
                                















sábado, 21 de janeiro de 2017

HISTÓRIA DE ITAMBÉ - PARTE 2

A COLONIZAÇÃO DO NORTE E NOROESTE DO PARANÁ


Barbosa Ferraz e sua ferrovia
Companhia de Terras Norte do Paraná
Os Curdos
Companhia Melhoramentos Norte do Paraná
O Povo Sutil 

                                 BARBOSA FERRAZ E SUA FERROVIA
         O Norte Paranaense começaria a ser colonizado a partir da segunda metade do século XIX. Os cafeicultores de São Paulo, interessados na fertilidade das terras paranaenses, adquiriram propriedades e começaram o cultivo do café no Norte Pioneiro. Porém havia dificuldades no escoamento da produção pela falta de estradas ou ferrovias que ligassem esta região a São Paulo.

Major Antônio Barbosa Ferraz Jr.
Fonte: Google Imagens

         Então um fazendeiro de Ribeirão Preto chamado Antônio Barbosa Ferraz Junior plantou um milhão de pés de café entre Ourinhos e Cambará. Como havia uma estrada de ferro que passava por Ourinhos, a Sorocabana, Barbosa Ferraz e outros agricultores decidiram construir um ramal desta estrada que cortaria o Norte do Paraná até Guaíra e se prolongaria depois para Assunção, no Paraguai. Dessa forma, facilitaria o escoamento da produção para o Porto de Santos. Assim foi fundada a Estrada de Ferro Noroeste do Paraná, nome alterado depois para Companhia Ferroviária São Paulo-Paraná. O início das obras do primeiro trecho entre Cambará e Ourinhos foi em 1923, com 29 quilômetros. Porém os custos da construção eram muito elevados para os agricultores. Por falta de recursos financeiros, a estrada não avançou por algum tempo. Era preciso atrair mais investidores para o projeto.
         Em 14 de janeiro de 1924, o jornal O Estado de São Paulo publicou uma matéria sobre a ferrovia, a fertilidade das terras norte-paranaenses e dos lucros certos que elas trariam a investidores. A matéria atraiu a atenção de um certo Lord Lovat.
                                  BARBOSA FERRAZ E SUA FERROVIA
         O Norte Paranaense começaria a ser colonizado a partir da segunda metade do século XIX. Os cafeicultores de São Paulo, interessados na fertilidade das terras paranaenses, adquiriram propriedades e começaram o cultivo do café no Norte Pioneiro. Porém havia dificuldades no escoamento da produção pela falta de estradas ou ferrovias que ligassem esta região a São Paulo.
         Então um fazendeiro de Ribeirão Preto chamado Antônio Barbosa Ferraz Junior plantou um milhão de pés de café entre Ourinhos e Cambará. Como havia uma estrada de ferro que passava por Ourinhos, a Sorocabana, Barbosa Ferraz e outros agricultores decidiram construir um ramal desta estrada que cortaria o Norte do Paraná até Guaíra e se prolongaria depois para Assunção, no Paraguai. Dessa forma, facilitaria o escoamento da produção para o Porto de Santos. Assim foi fundada a Estrada de Ferro Noroeste do Paraná, nome alterado depois para Companhia Ferroviária São Paulo-Paraná. O início das obras do primeiro trecho entre Cambará e Ourinhos foi em 1923, com 29 quilômetros. Porém os custos da construção eram muito elevados para os agricultores. Por falta de recursos financeiros, a estrada não avançou por algum tempo. Era preciso atrair mais investidores para o projeto.
         Em 14 de janeiro de 1924, o jornal O Estado de São Paulo publicou uma matéria sobre a ferrovia, a fertilidade das terras norte-paranaenses e dos lucros certos que elas trariam a investidores. A matéria atraiu a atenção de um certo Lord Lovat.


Mapa publicado na Folha de São Paulo em 16 de janeiro de 1.924. (CORRÊA, 1.991, pág., 38)
http://maringahistorica.blogspot.com/2009/04/verdade-sobre-companhia-de-terras-norte.html
(site pesquisado em 2011)


                   COMPANHIA DE TERRAS NORTE DO PARANÁ
Lord Lovat. Fonte: Google Imagens

          Simon Joseph Lovat, o 16º Lord Lovat da Escócia, diretor da Sudan Cotton Plantation Syndicate, especialista em agricultura, estava no Brasil juntamente com uma missão inglesa. Tal missão, que desembarcou no Rio de Janeiro, chefiada por Edwin Samuel Montagu, tinha o objetivo de negociar a dívida brasileira com os bancos ingleses e fiscalizar o Tesouro Nacional. Já Lord Lovat, queria encontrar terras para o cultivo do algodão e atender as indústrias têxteis da Inglaterra, o que fizera no Sudão. Lovat visitou o território entre os rios Paranapanema e Tibagi, os quais tinham sido colonizados por Barboza Ferraz. Sabendo que estas terras e as que ficavam entre o Ivaí e o Piquiri eram devolutas, ou seja, devolvidas pela Coroa Espanhola por não terem sido colonizadas, e de grande fertilidade, os ingleses e Lovat decidiram investir no Paraná.
          As terras devolutas da bacia do Ivaí haviam sido adquiridas pela Companhia Marcondes de Colonização, que iniciara um projeto para colonizar o Norte do Estado. Mas como não conseguiu cumprir as metas do projeto de e estava sem recursos para continuar com o empreendimento, seus proprietários decidiram vender os lotes à Cia. de Terras, que também comprou terras de grileiros e posseiros para evitar conflitos. Artur Thomas e João Sampaio, encarregados da Cia., encontraram-se com o presidente do Estado do Paraná, o Senhor Bento Caetano Munhoz da Rocha, a fim de comprarem as terras do Norte do Estado. Além do aval de Munhoz da Rocha, seria preciso a aprovação da Câmara Legislativa Estadual. Em meados de 1925, João Sampaio viajou para a Inglaterra para reunir-se a Lovat e outros empreendedores a fim de planejar a colonização de todo o Norte e Noroeste paranaense. Então foi fundada a Paraná Plantation, empresa responsável por controlar de Londres a Companhia de Terras Norte do Paraná.

Sede da Companhia de Terras Norte do Paraná em Londrina
Fonte: Google Imagens

              Assim foi feito, a Companhia adquiriu o título de posse das terras dos grileiros, depois as comprou novamente do governo do Estado, ao qual pagava 20 mil réis o alqueire. A compra totalizou 515 mil alqueires escriturados. Em seguida, o plano era vender terras aos colonos por 400 mil réis o alqueire. A responsabilidade pela demarcação das terras, construção de estradas e ferrovia ficou para a Companhia.
             O modelo de colonização inglês previa que os lotes seriam de no máximo 15 alqueires paulistas, ou 36 hectares. Para subsidiar os agricultores, seria formada uma vila ou pequena cidade a cada quinze quilômetros e uma cidade polo a cada cem quilômetros. Assim como: Londrina, Maringá, Cianorte e Umuarama. Por este motivo a região Norte ficou com maior número de municípios do que o restante do Estado. As cidades foram projetadas aproveitando as características do relevo, com divisão de datas para construção de prédios comerciais e residenciais. As cidades seriam circundadas por chácaras para abastecer os moradores. Como as terras norte-paranaenses eram repletas de rios e afluentes, os lotes nos vales teriam acesso à água de um lado à estrada no outro. Assim as propriedades ficavam finas e compridas.
            Os planos de Lord Lovat eram incentivar o cultivo de algodão para abastecer a indústria têxtil. Mas, por sugestão de Barbosa Ferraz, a cultura foi trocada pelo café, por ser mais lucrativa e garantir a possibilidade de enriquecimento rápido dos agricultores, o que alavancaria a venda de terras.

Escritura das terras do Norte do Paraná
Fonte: Google Imagens

             Para “limpar” a área da densa floresta que chegava a 40 metros de altura, foi utilizado o fogo. As matas queimavam por semanas, de tanta fumaça, o dia parecia noite. O que a natureza levara centenas de anos para formar, as chamas devastavam em poucas horas, abrindo clareiras para a instalação de vilas que se transformariam em cidades. Um grande desastre ambiental, que dizimou até as matas ciliares, ocasionando o assoreamento dos rios e córregos, sem contar os problemas causados posteriormente pelo uso abusivo de agrotóxicos pelos agricultores. Outro problema deste rápido povoamento foi a falta de conservação do solo, sem curvas de nível, houve erosão em diversas áreas.
            Mesmo havendo uma cláusula no contrato com o Estado do Paraná que determinava a preservação de 10% da mata, tudo foi derrubado. Pois a regra valia para o proprietário da terra, quando esta era vendida, o novo dono deveria assumir a responsabilidade; o que ocorreu raríssimas vezes. Pois, a CTNP e o Governo do Estado não fiscalizaram os proprietários, deixando-os livres para desmatar. Somente nas terras pertencentes à Companhia, a cláusula foi respeitada.


Faixa vermelha: terras adquiridas pela Companhia de Terras Norte do Paraná

Fonte: Google Imagens


                Para estimular a venda dos lotes, uma ampla rede de propaganda divulgou a “fartura” do Norte do Paraná, como foi citado no site: http://www.fecilcam.br/revista/index.php/geomae/article/viewFile/204/196, (pesquisado em 28/3/2013). Em todo o país, a região ficou conhecida como “Nova Canaã”, “Eldorado”, “Terra onde se anda sobre o dinheiro”, “Terra da Promissão”. Palavras que convenceram imprensa e população. Muitas famílias vieram ao Paraná, crentes de que suas vidas iriam melhorar. Porém, algumas se depararam com picaretas que vendiam terras habitadas por posseiros e jagunços armados; além de, em alguns casos, adquirem lotes cheios de pedras, impróprias para o cultivo. Quando as famílias ludibriadas procuravam os responsáveis pela Companhia, suas reinvindicações eram ouvidas e prontamente atendidas, com a troca por outras terras. Mas muitos dos que acreditaram no sonho do “Eldorado” voltaram para seus estados de origem decepcionados, sem fortuna. Pois, a propaganda estava além da realidade. Mesmo assim, outras famílias tiveram melhor sorte, compraram bons lotes e permaneceram na região cultivando café.
Propaganda da Cia. para vender suas terras
Fonte: http://www.usinadesolucoes.com.br/contemporania3.html  
(site pesquisado em 2012)

               O prolongamento da estrada de ferro São Paulo-Paraná ficou a cargo do Engenheiro-chefe Dr. Willan Reid, contratado pela CTNP.  A obra era fundamental para o transporte dos colonos às suas terras e para o escoamento da safra até o Porto de Santos. A estrada iniciava-se em Ourinhos, no quilômetro 400 da Estrada de Ferro Sorocabana, e a concessão com os dois estados garantia o prolongamento até Guaíra, às margens do Rio Paraná e fronteira com o Paraguai. Este país, por sua vez, faria uma linha férrea ligando Guaíra a Assunção, garantindo uma via comercial entre os dois países. O trecho construído por Barboza Ferraz e outros fazendeiros, até 1926, terminava em Cambará/PR. Em 1932, a firma MacDonald Gibbs. & Co. Ltda. concluiu mais um trecho, chegando a Jacarezinho. Além disso, uma estrada de rodagem foi aberta até mais adiante, no Patrimônio de Três Bocas, que seria denominada posteriormente de Londrina. Com acesso ao Norte do Paraná, a Cia. deu início à venda das terras. A partir de 1933, iniciou-se o prolongamento da linha até Londrina. Em Jatahy, o contrato com a MacDonald acabou, então a obra foi transferida para Rangel Christoffel. Como a venda de terras estava sendo lucrativa, a própria Companhia São Paulo-Paraná concluiu o trecho até Londrina, em 1935. A ferrovia também foi feita com o dinheiro de alemães judeus que se interessavam em investir na CTNP e adquirir lotes neste Estado. O que acabou com o advento da II Guerra Mundial, em 1940. Mesmo assim, as obras continuaram, porque, a cada dia, mais gente chegava ao Norte paranaense. 

Composição da Ferrovia São Paulo - Paraná

Fonte:http://robertobondarik.blogspot.com.br/
(Site pesquisado em 28/3/2013)

                    PRÍNCIPES INGLESES NO NORTE DO PARANÁ

          De acordo com Roberto Bondarik, Professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Edward Albert Christian George Andrew Patrick David, Príncipe de Gales e herdeiro do trono, seu irmão Albert Frederick Arthur George, Duque de York e segundo na sucessão real, vieram ao Brasil conhecer as terras do Norte do Paraná, pois eram acionistas da Paraná Plantation, proprietária das terras. Chegaram ao Rio de Janeiro a 25 de março de 1931, sendo recebidos pelo Governo Provisório de Getúlio Vargas. Ali permaneceram por três dias, depois seguiram até São Paulo e de lá, tomaram o trem para o Norte do Paraná.
          Os trilhos da ferrovia os permitiram chegar até uma estação recém-inaugurada, onde uma cidade começava a se formar, hoje Cornélio Procópio. No local havia depósitos, pátio de manobras, alojamentos de engenheiros e funcionários que trabalhavam na construção da ferrovia que seguia em direção a Jataizinho.

Albert

Edward
Fonte: Prof. Me. Roberto Bondarik


            Para recepcionar os príncipes, foi feito um arco com a inscrição “Welcome”. Este seria iluminado com luzes elétricas, mas não funcionou. As onze horas da manhã, no final de março de 1931, os nobres chegaram ao Paraná acompanhados de Lord Lovat e Arthur Thomas. Depois da recepção, os príncipes seguiram ao escritório da Companhia para tratar de negócios. Após duas horas, decidiram ir a pé até o final da linha, a alguns quilômetros dali. Na volta, o Príncipe de Gales decidiu vir correndo, os acompanhantes precisaram vir de carro devido à distância e ao calor. Dali, seguiram até ao loteamento onde seria erguida a cidade de Londrina. À meia noite do mesmo dia, os príncipes voltaram a São Paulo.
           Anos mais tarde, o Príncipe Edward abdicou do trono para se casar com uma americana divorciada e seu irmão, Albert, assumiu a coroa. Recentemente Albert foi retratado no filme O Discurso do Rei, que ganhou prêmios Oscar em 2011.


Arco de boas vindas ao Principe de Gales 

e ao Duque de York em Cornélio Procópio em 1931

(Fonte: Blog Ferrovia São Paulo - Paraná)
Blog: Roberto Bondarik (site pesquisado em 2011)

                                                OS CURDOS

        Outro fato curioso da história do Paraná, relatada no blog do Professor Roberto Bondarik, foi a tentava dos ingleses de trocar as terras do Norte Paranaense pelas habitadas por curdos no Oriente Médio, um povo sem território definido. Quando Lord Lovat adquiriu estes lotes, os ingleses descobriram petróleo no norte do Iraque, onde vivia o povo curdo. A área era dominada pela Inglaterra, mas os curdos não se dobravam à dominação e, frequentemente, guerreavam contra os ingleses. Sendo assim, para explorar o petróleo do local, seria necessário remover este povo dando-lhe outro território.

Território habitado pelos curdos
Fonte: Google Imagens

        O Príncipe de Gales, acionista da Paraná Plantation, e Lord Lovat, numa tentativa de resolver o problema, decidiram entregar as terras do Norte do Paraná, sigilosamente, em forma de arrendamento no ano de 1933 aos curdos. Getúlio Vargas, presidente do Brasil na época, aceitou a proposta visto que nosso país estava endividado com os bancos da Inglaterra e quem deve perde a liberdade.
        Tudo estava acertado. Porém em 1934, a notícia tornou-se pública através dos jornais. Então várias entidades paranaenses se posicionaram contra a vinda dos curdos para cá, entre elas a imprensa curitibana, sindicatos, associações, professores universitários e a Ordem dos Advogados do Paraná.  A “Campanha contra a imigração dos Assírios” tinha várias motivações, desde a luta contra o imperialismo britânico até manifestações puramente racistas, comenta Bondarik.
        Frente à pressão popular, Getúlio Vargas não teve escapatória, voltou atrás de sua decisão e vetou a vinda dos curdos ao país. Até a Companhia de Terras Norte do Paraná, que possuía cerca de 515.000 alqueires, desistiu da imigração curda por acreditar que aquele povo bélico desvalorizaria suas terras. Então, a Companhia voltou ao seu antigo projeto de venda de pequenos lotes.
         Quanto ao povo curdo, ainda hoje se encontra sem território definido. Frequentemente, sofre com a discriminação e o massacre promovido pelos governos dos países onde vive.

Povo Curdo. Fonte: Google Imagens

             COMPANHIA MELHORAMENTOS NORTE DO PARANÁ

           Dois duros golpes puseram fim aos sonhos britânicos no Norte do Paraná: Lorde Lovat, o homem forte da Cia., morre de colapso cardíaco em 16 de fevereiro de 1933 e explode a Segunda Guerra Mundial em 1939. A Inglaterra precisava de dinheiro para financiar suas forças armadas e o Presidente Getúlio Vargas pressionava os britânicos a entregarem ao governo a Estrada de Ferro São Paulo-Paraná. Então, sem saída, o grupo de Lovat decide se desfazer da Cia. Neste período, é incorporado ao patrimônio da empresa o Norte Novíssimo do Estado, correspondente à região de Umurarama, um acréscimo de 300.000 alqueires.
           O que motivou o interesse dos brasileiros pelo negócio com os britânicos foi a grande riqueza advinda do café cultivado nas terras paranaenses. Principal produto brasileiro, o café tinha alta produtividade nas terras vermelhas. Além disso, a infraestrutura montada pelos ingleses com o desmatamento, construção de estradas, ferrovia, vilas, cidades, favorecia a venda de terras para imigrantes. A Cia., incluindo terras e ferrovia, foi vendida  no segundo semestre de 1944, ao grupo de Gastão Vidigal, Gastão de Mesquita Filho, Arthur Bernardes Filho e os irmãos Soares Sampaio. O valor da transação: 1 milhão e 520 mil libras esterlinas. Valor irrisório comparado aos lucros que a Cia. obteve depois.  A renda do negócio pouco ajudou no financiamento da guerra, como lamentou Arthur Thomas, pioneiro britânico no Paraná:

       "A venda ajudou a custear 10 segundos do esforço de guerra britânico".


        Posteriormente a estrada de ferro foi vendida ao governo brasileiro pelo grupo de Vidigal e outros. Apesar do acordo firmado entre Brasil e Paraguai para levar os trilhos até Assunção, até hoje, Cianorte é o ponto final da estrada.
         Na época da negociação, a Cia. vendera apenas um terço das terras, sendo assim, foram os brasileiros que colheram os maiores lucros do empreendimento britânico. A sede da Companhia foi mudada para Maringá.
      O Norte do Paraná tornou-se o maior produtor de café do planeta, produzindo 43% da produção nacional e 1/3 da mundial.  Chegando a colher 60% da produção mundial na década de 60. Londrina ficou conhecida durante décadas como a Capital Mundial do Café.

Anúncio veiculado em 1958 em jornais e revistas da época, este foi extraído da revista Anuário "Sul do Brasil" n° 21 -  após a Companhia Terras Norte do Paraná, inglesa, ser adquirida e nacionalizada com a denominação Companhia Melhoramentos Norte do Paraná. Acervo: J Cecílio.

(site pesquisado em 2011)

                                             O POVO SUTIL

         A colonização do Norte do Paraná decretou o fim de um povo chamado Sutil. De acordo com artigo do jornalista Airton Donizete, publicado na Revista Tradição, de Maringá/PR (Julho, 2010), este povo chegou ao Norte e Noroeste do Estado por volta de 1910 e aqui ficou até 1960. Eles descendiam de negros e índios, por isso, eram conhecidos como caboclos cafuzos. O nome Sutil deriva de um tropeiro chamado Benedito Subtil, que se juntou aos caboclos no sul do Paraná. De acordo com o professor Lúcio Tadeu Mota, há vestígios de sutis em toda a região de Maringá, Campo Mourão, no Vale do Ivaí, Cianorte e Japurá. Suas casas eram feitas de pau a pique com cobertura de embirra, eram criadores de porcos. A publicação afirma também que este povo descendia da mesma etnia de escravos muçulmanos, chamados Malês, que promoveram da “Revolta dos Malês”, em 1825, na Bahia. Segundo o engenheiro Marcos Luiz Wanke, membro do Instituto Histórico e Etnográfico Paranaense, os Sutis que vieram para o Paraná não participaram da revolta. Inicialmente, se estabeleceram em Castro, onde fundaram a “República da Sinhara”, hoje Fazenda Capão Alto. Depois viajaram por trilhas até Cianorte e chegaram às ruínas de Vila Rica do Espírito Santo, onde se estabeleceram formando vilas.
         De acordo com o pioneiro Antônio Rodrigues Machado, em Itambé, até o ano de 1946, havia ruínas de três aldeias sutis. Uma onde hoje é o sítio Nossa Senhora Aparecida, outra na Fazenda Monte Azul e a terceira na Gabirobeira. Tais ruínas eram compostas por casas feitas com palmitos e tabuínhas. No Sítio Nossa Senhora Aparecida havia um monjolo movido a animal, com cinco pilões, já em fase de apodrecimento. Na Gabirobeira, foi encontrado um cemitério com dezesseis túmulos, que eram feitos de terra e por cima havia samambaias. Todos os mortos das três aldeias eram sepultados ali, entre as árvores da floresta. O senhor Machado disse ainda que os sutis viveram aqui até 1940. Deixaram a região por imposição da Cia. De Terras, que via este povo como um obstáculo à colonização.
         No entanto, um deles mudou-se para o município de Marialva, na zona rural próximo ao distrito de Cambuí. Ele se chamada Benedito Valério Sutil, um senhor de pele morena clara. Ele falava a Língua Portuguesa e usava algumas expressões particulares. Antônio R. Machado e seu pai iam até o sítio do senhor Valério trocar sua produção por fubá, pois o sutil possuía monjolo e moinho. Os Machado também compraram dele mudas de cana e grama. Foi o senhor Valério que narrou a história dos sutis de Itambé ao senhor Machado. Entre outras coisas, o senhor Valério contou que seu povo ia até Apucarana a cavalo comprar mantimentos, eles seguiam por trilhas, já que não havia estradas.

Área habitada pelo povo Sutil em Itambé

Fonte: Google Mapas

          Em Itambé, nas três aldeias, moravam várias famílias. Elas viviam de pesca e caça e só plantavam milho e frutas em pomares, mas suas laranjas eram azedas. Essas laranjeiras deveriam ter dez anos quando o senhor Machado as encontrou em 1946. A mesma idade deveria ter o cemitério. Neste foi encontrado um cedro em forma de cruzeiro, o que evidenciava que os sutis eram cristãos. O braço do cruzeiro já havia caído e o cedro estava brotando.
          Para navegarem pelo Rio Ivaí, os sutis usavam jangadas feitas com uma árvore que secava e ficava leve, então os troncos eram amarrados com cipó. Foi em jangadas que os sutis deixaram Itambé, quando a Cia. Melhoramentos chegou aqui.

Fazenda onde havia uma aldeia Sutil e o cemitério dos Sutis

Fonte: Google Mapas

          Todavia, há indícios de que alguns deles permaneceram nessas redondezas. Segundo o Senhor Antônio Pelatti, um dos primeiros moradores de Itambé, região do Guerra, ele avistou caboclos no Rio Ivaí. Tudo aconteceu em 1950, Antônio acordou de madrugada para ir caçar paca com Firmino, seu vizinho. Os dois foram, com alguns cães, até às margens do rio, local hoje denominado Sítio Três Marcos. Eles se separaram para encurralar a caça, Antônio ficou ao lado de uma grande pedra. Na escuridão, ele ouviu vozes no meio do rio; quando clareou, conseguiu ver algumas moças baixinhas com os cabelos lisos e compridos e alguns rapazes de cabelos crespos. Todos estavam nus, tinham a pele escura e eram muito fortes, havia nove adolescentes de mais ou menos quinze anos.  Eles conversavam muito numa língua não compreendida por Antônio e corriam nas corredeiras de um lado para outro. Antônio ficou com medo, pois não sabia o que eles poderiam fazer se o vissem. Quando se aproximaram da margem onde estava, Antônio gritou por Firmino. Então os adolescentes mergulharam e desapareceram.  Nunca mais foram vistos por Antônio que não acreditava que eram seres humanos.  
Antônio Pelati, testemunha dos caboclos
Foto: Denizia Moresqui  

        Quando o vizinho chegou, perguntou o que ocorrera e ouvindo a história de Antônio, esclareceu que aquelas pessoas eram caboclinhos d’água. Firmino disse que já os tinha visto no Rio Paraná. Segundo este, eles não ofereciam muito perigo, a não ser se pegassem um bote para virá-lo.
         De acordo com Pelati, alguns dias depois, Firmino e seu irmão foram pescar no Ivaí. De repente uma mão segurou na beira do bote. Os dois não tiveram dúvidas: deceparam os dedos do caboclinho com um facão. Eventos como esses podem ter dado origem à lenda do Caboclinho D’Água, já mencionada anteriormente, segundo a qual, um menino que morava no Rio Ivaí virava os barcos dos pescadores.
           No artigo da Revista Tradição (julho, 2010) há referência ao livro JACUS E PICARETAS – A HISTÓRIA DE UMA COLONIZAÇÃO, de Ildeu Manso Vieira. O livro conta que, como os sutis não eram donos das terras onde viviam, tiveram que deixá-las em prol da Cia. De Terras. Alguns foram mandados por um diretor da Cia. para Roncador, onde uma parte morreu de infecção pulmonar devido ao frio, pois não possuíam agasalhos; outra parte morreu de lepra por falta de assistência médica.
Casa dos Sutis – Fonte: Revista Tradição: Julho/2010

          A Revista Tradição ainda traz outras curiosidades sobre este povo. Os sutis comemoravam por semanas as festas de São Pedro, Santo Antônio e São João. O cardápio dos festejos era carne de porco com bijus feitos à base de mandioca, batata, milho e banana, tudo socado em monjolos. No entanto, eles eram tímidos em relação a estranhos, não gostavam da aproximação. Só se casavam entre si, por isso tinham problemas consanguíneos, muitos nasciam albinos. A sua média de vida era de 45 anos, a causa de morte geralmente era lepra ou anemia. Os velórios eram feitos em casa, as próprias famílias faziam os caixões de madeira. Porém o corpo era sepultado no chão da cova, enrolado numa mortalha, o “banguê”, e o caixão era posto sobre o corpo. Os sutis eram criadores de porcos, galinhas e equinos. Para vender seus animais em outras localidades, abriam trilhas na mata. Apesar de serem cristãos, mantinham alguns ritos africanos.    












ESCREVENDO O FUTURO

                                                                                 ESCREVENDO O FUTURO         Minha casa na fazenda era grand...